Título: Pilula previne a AIDS
Autor: Marinho, Antônio
Fonte: O Globo, 24/11/2010, Ciencia, p. 38

Pela primeira vez, um comprimido oferece proteção contra o HIV

O TRUVADA é usado no tratamento da Aids. Estudo com 2.499 voluntários mostrou que a droga é eficaz também na prevenção

Um comprimido tomado diariamente, que combina duas drogas, pode ser um grande avanço para prevenir a infecção pelo HIV, o vírus da Aids. Num estudo com 2.499 homens homossexuais e transexuais (1,2%) voluntários, incluindo brasileiros, o Truvada (tenofovir e emtricitabina) aumentou em 43,8% a proteção contra a infecção, quando associado a uso de preservativos e aconselhamento médico e psicológico, segundo estudo na ¿New England Journal of Medicine¿.

Esta é a primeira pílula que se mostra eficaz na prevenção da Aids, e com bom índice de proteção. Os participantes que tomaram o comprimido em 50% ou mais dos dias tiveram 50,2% menos infecções pelo HIV. No grupo que usou em 90% ou mais, o índice chegou a 73%, em relação ao placebo (substância inócua).

Porém, os cientistas destacaram que a droga (da Gilead Sciences) não substitui as medidas preventivas já conhecidas, principalmente a camisinha. Além disso, ela não foi testada em heterossexuais, mulheres ou dependentes químicos que costumam usar seringas para se drogarem. O Truvada mata o vírus antes que ele entre na célula.

¿ Os dados do estudo (iniciado em 2007 e coordenado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos) indicam um avanço importante que pode contribuir para frear a epidemia entre os homossexuais ¿ diz Kevin Fenton, chefe de prevenção de Aids no Centro para o Controle e Prevenção de Doenças nos EUA. Mas não se deve considerar a pílula a primeira linha de defesa contra o HIV, e sim os preservativos.

O Truvada é liberado nos EUA para tratamento e no Brasil ainda está em aprovação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A análise de segurança e eficácia iPrEX (sigla de Iniciativa Profilaxia Pré-Exposição) envolveu pelo menos 30 pesquisadores de 11 centros, em seis países: Brasil (no Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas ¿ Ipec/Fiocruz, Projeto Praça XI e USP), Equador, Peru, EUA, Tailândia e África do Sul. No Ipec, a investigação foi liderada por Valdiléia Veloso e teve 200 voluntários. Brenda Hoagland, coordenadora clínica no Ipec, diz que ele foi feito com o grupo mais vulnerável.

¿ Essa pesquisa não pode ser extrapolada para outros grupos, como heterossexuais e mulheres. Nem se trata de vacina. Nessa fase, o objetivo foi testar a segurança e eficácia da droga na prevenção ¿ comenta Brenda. Nos exames, podemos verificar se havia medicação no sangue dos voluntários, e o remédio ofereceu proteção adicional de 44%. Quanto mais a pessoa seguia à risca a orientação de tomar o fármaco diariamente, maior o seu nível de proteção.

A combinação do Truvada é uma das mais eficazes em retrovirais. Por isso ele foi escolhido para o teste de prevenção.

¿ Os efeitos como náusea, vômito e alteração da função renal não foram importantes. Na próxima etapa, a ideia é que todos os participantes recebam a droga ¿ diz Brenda. ¿ Com novos estudos, autoridades de saúde poderão avaliar se vale a pena oferecer o medicamento na prevenção para as pessoas mais expostas ao vírus.

O fator econômico pesa. A droga representa um gasto anual de US$ 5 mil a 1 mil por paciente nos EUA. Em países pobres, que usam o genérico, são 39 centavos de dólar ao dia.