Título: EUA esperam atrasos em obras de jogos
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 02/12/2010, O Mundo, p. 43
Documentos mostram que americanos querem lucrar com Copa e Olimpíadas no Brasil
O governo americano espera atrasos nas obras para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, e já começou a ampliar a presença de pessoal, estrutura e recursos no Brasil de olho na possibilidade de obter benefícios no país graças aos jogos, segundo informações filtradas pelo WikiLeaks e colocadas ontem num resumo em português em seu site. Os mesmos documentos enviados da embaixada americana em Brasília a Washington - que contêm alfinetadas ao "jeitinho brasileiro" - indicam que os EUA também enxergam nos dois eventos sediados pelo Brasil uma grande oportunidade de "aumentar a cooperação e a expertise brasileira em contraterrorismo".
Num telegrama de novembro do ano passado a Washington, a conselheira para assuntos administrativos da embaixada americana, Cherie Jackson, afirma que embora a segurança física de instalações nunca tenha sido prioridade no Brasil, o foco na proteção das infraestruturas deve ser cada vez maior à medida que se aproximam os jogos. O documento diz que autoridades brasileiras admitem a possibilidade de um ataque durante as competições, e estariam identificando as principais instalações que precisariam ser protegidas.
"A preocupação, recentemente ampliada, com a infraestrutura brasileira, aliada à necessidade de resolver desafios de infraestrutura na contagem regressiva para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, apresentam uma oportunidade para os EUA de se envolverem em desenvolvimento de infraestrutura e também na proteção de infraestrutura crítica e segurança cibernética", escreveu a conselheira.
Excesso de promessas do governo brasileiro
Seguindo a mesma linha, a ministra-conselheira da embaixada Lisa Kubiske, que ainda está no cargo, aponta oportunidades comerciais e militares impulsionadas pelos jogos no país. Num detalhado relatório de dezembro do ano passado intitulado "Olimpíadas do Rio - O Futuro é Hoje", Lisa sustenta que o "governo dos EUA deveria se aproveitar do interesse do Brasil no sucesso olímpico para progredir na cooperação bilateral em segurança e troca de informações".
A conselheira-ministra prevê ainda atrasos nas obras para os jogos, "que causariam um ônus maior ao governo americano para garantir que os padrões necessários sejam alcançados". Segundo Lisa, os problemas de organização seriam causados pela forma com a qual as coisas são feitas no Brasil.
"Articular os objetivos mais amplos e deixar os detalhes para o último minuto pode ser o jeito tipicamente brasileiro, mas pode gerar problemas", segundo o documento.
Ela questiona também o que acredita ser um excesso de promessas e pouco planejamento para os jogos da parte de Brasília. Além disso, diz que as tentativas de EUA e Reino Unido de entrar em contato com o Ministério dos Esportes brasileiro não foram bem-sucedidas.