Título: Aval para aumento nos juros
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 02/12/2010, Economia, p. 35

Dilma endossaria alta na Selic já este mês. Presidente eleita também quer cortar gastos

A presidente eleita Dilma Rousseff já está preparada para endossar a retomada da alta dos juros e não descarta que isso aconteça ainda em dezembro, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima semana. Ela e sua equipe acreditam que o início de um novo ciclo de aperto monetário será seu primeiro grande teste na área econômica. Por três reuniões seguidas, a taxa de juros básica da economia (Selic) vem sendo mantida em 10,75% ao ano pelo Banco Central (BC), mas declarações recentes da autoridade monetária ajudaram a alinhar cada vez mais as expectativas de que nova elevação está prestes a ocorrer - este mês ou em janeiro.

Este seria o primeiro sinal da presidente eleita ao mercado de que o BC terá autonomia durante a sua gestão e de que pretende manter um estilo mais gerencial do que propriamente político na administração da economia. Atual diretor de Normas do BC, o futuro presidente da instituição, Alexandre Tombini, já avisou que terá "autonomia operacional total" logo depois de ter sido anunciado para o cargo.

No mercado futuro, taxa sobe com força

Ontem, na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), os investidores puxaram um verdadeiro rali nas taxas futuras de juros. Os contratos DI com vencimento em janeiro de 2011 subiram para 10,76%, ante um fechamento de 10,64% na quarta-feira. Essa taxa reflete a aposta de uma alta de 0,25 ponto percentual da Selic em dezembro. Trata-se de uma média das projeções, incluindo os que acreditam em manutenção e os que preveem um aumento de meio ponto percentual.

Muitos analistas acham que o aumento ainda não virá em dezembro, mas sim que a ata da reunião do Copom da semana que vem, a última do atual presidente Henrique Meirelles, já dará os primeiros indícios de que os juros vão subir no início de 2011.

- O mercado ainda está com um pé atrás, esperando um sinal efetivo de que o novo governo vai manter a política atual. Pode até ser que suba 0,25 ponto percentual semana que vem, mas a expectativa é que a alta comece mesmo a partir de janeiro - argumentou o economista-chefe da Austing Rating, Alex Agostini.

Para o ex-diretor do BC e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, o regime de meta de inflação funciona, na prática, com autonomia e o BC deve mostrar continuidade. Ele não descarta o aumento dos juros na semana que vem, tendo em vista as recentes pressões inflacionárias:

- O trabalho sujo já foi feito pelo mercado, que subiu as taxas futuras. Isso é o que importa para o crédito. Os contratos para janeiro de 2013 estão em 12,35% ao ano, contra algo perto de 11,80% há duas semanas.

Ontem, os contratos para janeiro de 2012 subiram para 12,13%, a maior taxa desde 23 de junho. Analistas que acompanham a BM&F ficaram impressionados com o volume de negócios com juros futuros ontem. Foram mais de 2,8 milhões de contratos negociados, um dos maiores volumes do ano. O contrato de janeiro 2011 foi o mais negociado, movimentando R$119 bilhões.

Segundo Luciano Rostagno, estrategista da CM Capital Market, a alta da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) para 1% na última semana de novembro, dado divulgado ontem pela Fundação Getulio Vargas (FGV), influenciou o movimento no mercado.

A presidente eleita também se prepara para cortar gastos. Estima-se que a redução, inicialmente, possa variar de R$10 bilhões a R$20 bilhões. Mas, para conseguir fechar as contas em 2011, técnicos do governo acreditam que este valor terá que praticamente dobrar.

Embora juros mais altos e cortes sejam medidas impopulares, Dilma, que é conhecida pelo pragmatismo, sabe que, se 2011 for um ano mais apertado, é para que 2012 seja melhor. Integrantes da equipe de transição garantem que não haverá sobressaltos e que a nova presidente, que acompanha de perto os números da economia doméstica e o desempenho dos mercados internacionais, pretende fazer um "pouso suave".

Dilma também acompanha o câmbio. Um dos primeiros membros da equipe confirmados no governo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já afirmou que as medidas tomadas pelo governo para conter a valorização do real estão surtindo efeitos. Mas Dilma é sensível à demanda dos exportadores - e, por isso, ações como a imposição de algum tipo de quarentena ao capital externo não saíram da mesa.

COLABOROU Bruno Villas Bôas