Título: Tiro pela culatra
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Fonte: O Globo, 06/12/2010, Opinião, p. 6
Há uma real e perigosa ameaça que sempre continuará pairando sobre os jovens: a busca dos estados alterados de consciência através de drogas ilícitas, cada vez mais potentes hoje face às constantes mutações genéticas, a exemplo da maconha, cuja legalização para uso, comércio e plantio para consumo próprio é constantemente defendida pela chamada corrente progressista. Porém até hoje legalizada com mais ênfase para fins medicinais em alguns países.
Inúmeros são os argumentos de ativistas pró-legalização de drogas, entre eles o de que é um direito individual usar e dispor do corpo da maneira que melhor lhe convier. Um outro argumento é que a ênfase na redução de danos deve ser a tônica numa política sobre drogas, com exemplos de experiências de sucesso no exerior. Há também a afirmativa de que se as drogas fossem legalizadas diminuiriam os lucros e o poder do tráfico e dos cartéis no mundo.
O ponto central dos argumentos é que a guerra contra as drogas é mais danosa que o consumo. Ou seja, só haveria a possibilidade de controle das drogas num mercado legal. Outro discurso, dos que defendem, por exemplo, a descriminalização e legalização da maconha, é de que a venda de bebidas alcoólicas e de cigarros, drogas também prejudiciais ao organismo, é livre, como se a legalidade de um mal pudesse justificar a legalização de outro. Há recentes pesquisas e estudos no Brasil e em outros países mostrando que a maconha dita "inofensiva e recreacional" afeta seriamente a memória e o cérebro em geral.
A realidade, porém, é que quando o assunto é drogas não há verdades absolutas e acabadas. É preciso relativizar todos os postulados da pró-legalização. Se a política de repressão não deu certo, qual é a garantia que uma política de legalização dará? O pressuposto do combate fracassado não serve, por exemplo, para a Colômbia de hoje, onde o ex-presidente Uribe e o atual sucessor obtiveram até aqui resultados significativos numa política de repressão ao tráfico de cocaína com a clara escassez do produto no mercado mundial e elevação de seu preço.
É preciso entender também que uma lei sobre drogas não pode ser específica para os que a usam e dizem manter uma vida normal. Uma lei nesse sentido deve ter por finalidade proteger toda a sociedade. Da mesma forma que muitos usam drogas e se controlam, outros viram trapos humanos, alguns se transformam em monstros assassinos e boa parte destrói famílias inteiras.
Continuo acreditando que o melhor caminho é o da prevenção e da repressão inteligente, não de uma política permissiva. Nesse ponto fico com as sensatas palavras da presidente eleita, Dilma Rousseff, ao ser indagada, tempos atrás, sobre a descriminalização de drogas: "Descriminalização de drogas é um tiro no pé. Num país com 50 milhões de jovens entre 15 e 29 anos é complicado", disse.
Bota complicado nisso. Descriminalização e legalização de drogas, antes de tiro no pé, com toda certeza é um perigoso tiro pela culatra.
MILTON CORRÊA DA COSTA é coronel da PM do Rio, na reserva.