Título: Hillary teme Irã na América Latina
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Fonte: O Globo, 03/12/2010, O Mundo, p. 37
Secretária adverte que Teerã vendeu armas disfarçadas de material eletrônico a Chávez
O PRESIDENTE iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, é recebido pelo venezuelano Hugo Chávez no palácio presidencial de Miraflores, em Caracas: tentativa de envio de armas
HILLARY CLINTON: poucas informações sobre estratégia iraniana na América Latina
Documentos vazados pelo site WikiLeaks mostram a preocupação do Departamento de Estado americano com a presença crescente do Irã na América Latina, região que os EUA sempre consideraram como sua esfera de influência natural. Dois telegramas assinados pela própria secretária Hillary Clinton indicam que o regime de Mahmoud Ahmadinejad estaria tentando fortalecer seus laços com governos de esquerda da região - "que talvez dividam a agenda antiamericana do Irã" - para tentar reduzir seu isolamento diplomático. A iniciativa é comandada, aparentemente, pelo presidente, que estaria recebendo assistência pessoal do venezuelano Hugo Chávez. Num dos documentos, Hillary diz ainda que o Irã vende armas disfarçadas de material eletrônico à Venezuela por meio da Turquia, contrariando uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que proíbe Teerã de vender armas e produtos relacionados.
Os documentos revelam uma tentativa do Irã, no início do ano passado, de enviar tambores de nitrato e sulfito e instrumentos de laboratório à Venezuela - material que pode ser usado na fabricação de bombas. O carregamento, no entanto, foi inspecionado pela Turquia e reenviado ao Irã. Ainda assim, os telegramas sugerem que o país não abandonou as tentativas de enviar materiais proibidos a Caracas. Três meses depois da primeira apreensão, a secretaria de Estado alerta à sua embaixada em Ancara que a Venezuela aguarda um carregamento de armas e aviões não tripulados enviados pelo Irã. A carga estaria disfarçada de material eletrônico, e seria transportada por terra até a Turquia, onde a colocariam num navio em direção à Venezuela. Não fica claro se esse segundo carregamento chegou a ser interceptado.
Refúgio de grupos terroristas
Segundo um telegrama da secretária de Estado americana enviado a 24 embaixadas latino-americanas dois dias depois de assumir o cargo, os EUA estão preocupados sobretudo com a atuação de grupos terroristas na região, que poderiam se aproveitar da estreita relação entre Teerã e Caracas.
"Dada a relação entre Irã e Venezuela, indivíduos ligados ao Hezbollah provavelmente veem a Venezuela como um refúgio seguro onde podem promover captação de recursos e apoiar atividades sem interferência", diz o documento.
A preocupação recai ainda sobre outros "governos populistas", como Bolívia, Equador e Nicarágua, que também buscam estreitar laços políticos e econômicos com Teerã. O Brasil não é citado em nenhum dos dois telegramas.
Um dos indícios mais fortes apontados para assinalar o aumento da influência iraniana na América Latina é a construção de centros culturais em 16 países da região - que Hillary questiona se não seriam centros de doutrinação de estudantes e financiados pelo Hezbollah.
Apesar de a aproximação crescente entre Irã e a América Latina ser um tema que preocupa os EUA e seus aliados já há alguns anos - tendo impulsionado, por exemplo, uma visita do presidente israelense à região no ano passado para tentar conter os avanços de Ahmadinejad - a secretária de Estado afirma que dispõe de poucas informações sobre a estratégia de Teerã no subcontinente. Hillary elabora então diversas questões a serem respondidas pelas embaixadas e observadores do Irã. Elas revelam que a principal preocupação da diplomacia americana é saber se há uma tentativa iraniana de usar a América Latina para fortalecer grupos terroristas tanto na região como no Oriente Médio.
"O Irã tem alguma intenção de usar a região como palco para potenciais ataques terroristas, tanto diretamente como por substitutos? Existem pessoas filiadas ao governo iraniano preparando-se para criar redes para potenciais ou futuras atividades terroristas? Teerã e o Hezbollah compartilham objetivos similares na região? (...). O Irã é responsável por treinar grupos armados ilegais na Colômbia ou em outro lugar?", pergunta Hillary.
A presença iraniana na indústria nuclear latino-americana também é uma fonte de preocupações para Washington, segundo as informações vazadas pelo WikiLeaks. Ontem, contradizendo um comentário do ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Liberman - feito durante uma viagem ao Peru em 2009 e revelado por documentos vazados - a Bolívia negou que seu governo tenha assinado um acordo com o Teerã para a exploração de urânio em seu país.
- Não há nada disso. O presidente Evo Morales e a ministra do Planejamento e Desenvolvimento, Viviana Caro, viajaram ao Irã, e as reuniões tiveram relação com outros temas de cooperação mútua - disse um porta-voz da Presidência.