Título: Enchente com dias contados
Autor:
Fonte: O Globo, 07/12/2010, Rio, p. 14
Prefeitura anuncia verba para obra na Praça da Bandeira, o ponto mais crítico da cidade, mas que só fica pronta em 2013
RUA ALAGADA na saída do Túnel Santa Bárbara: horas depois da chuva, a cidade sofria com enchentes
LÍNGUA NEGRA em Copacabana: sujeira trazia pelas águas
NA PRAIA DO Flamengo, carros arrastados pela enchente ficaram espalhados pelas calçadas e ruas
Cláudio Motta e Rogério Daflon
No dia seguinte ao temporal que causou transtornos em diversos pontos da cidade, o secretário municipal de Obras, Alexandre Pinto, anunciou ontem que a prefeitura obteve verba da segunda fase do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC 2) para a solução definitiva dos alagamentos na Praça da Bandeira, a área mais crítica do Rio. As obras, no entanto, só serão licitadas no ano que vem, com início previsto para até o fim do primeiro semestre de 2011. A inauguração deverá ocorrer somente em 2013. Até lá, o secretário reconhece que apenas medidas paliativas vão ser tomadas, como limpeza de galerias de escoamento. E os cariocas terão que continuar convivendo com ruas alagadas; carros atravessados após as enxurradas, como ocorreu na Praia do Flamengo; línguas negras iguais às da Praia de Copacabana; e falta de guardas orientando o trânsito nas principais vias, como foi observado ontem até por volta das 11h.
Dos 245 pontos listados como críticos, a prefeitura informa ter solucionado 25. No ano que vem, o município planeja fazer obras de drenagem em mais 29 locais. Outros 12 estão previstos para 2012. Os 179 restantes não têm prazo para serem executados.
Um estudo da Rio-Águas com o levantamento de praticamente todos os corpos hídricos da cidade será finalizado daqui a um ano, em novembro de 2011: o Plano Diretor de Drenagem. Orçado em R$10 milhões, o trabalho pretende identificar os locais mais críticos e apontar soluções tecnicamente viáveis. Os técnicos medem a capacidade de escoamento dos rios e confrontam com o volume de água que escorre numa chuva forte, indicando os pontos exatos nos quais há grande probabilidade de transbordamentos.
¿ Até lá (a inauguração das obras, em 2013), são medidas paliativas, como limpeza de canais e de rede de drenagem. ¿ disse o secretário Alexandre Pinto, alegando que a prefeitura investiu mais de R$200 milhões em obras, sendo metade com recursos do governo federal, em 280 frentes de contenção de encostas, algumas ainda em fase de conclusão, além de dragagem. ¿ Os locais que receberam essas obras tiveram muito sucesso nessa chuva de ontem (anteontem). Com certeza, ainda teremos outros pontos de alagamento na cidade, mas são investimentos de longo prazo que teremos que fazer.
Rio Maracanã terá trecho desviado
A estratégia usada para evitar os alagamentos na Praça da Bandeira é simples: diminuir a quantidade de água que flui para o local e retardar o tempo de escoamento das chuvas. Uma parte da vazão do Rio Maracanã, na altura da Rua Felipe Camarão, será desviada para o Rio Joana. Este rio sofrerá transposição nas proximidades do estádio do Maracanã, passando num túnel sob o morro da Mangueira, por debaixo da Rua Fonseca Teles (São Cristóvão, também em túnel), seguindo pela rua São Cristóvão, até desaguar na Baía de Guanabara. Com a obra, com investimento de R$151 milhões, a capacidade de escoamento será ampliada, diminuindo as chances de transbordamentos.
Para retardar a velocidade da água, sobretudo nos grandes temporais, a prefeitura construirá quatro grandes reservatórios. Dois ficarão no Rio Joana (um na Rua Maxwell, na altura do supermercado Extra; outro na Rua Borda do Mato, perto da subestação da Light), um no Rio Trapicheiros (altura da Rua São Francisco Xavier) e um na Praça da Bandeira. Essas obras estão orçadas em R$192 milhões. Tanto o projeto de transposição do Rio Joana como a construção dos quatro reservatórios foram apontados pelo Plano Diretor de Drenagem.
¿ O rebaixamento na Praça da Bandeira vai absorver as águas que venham a chegar superficialmente ¿ disse Alexandre Pinto, afirmando que a obra é um dos compromissos que a cidade assumiu para sediar tanto a Copa de 2014 como os Jogos Olímpicos de 2016.
Além das medidas paliativas, a prefeitura promete mais agilidade e precisão nas previsões das chuvas fortes, que têm grande potencial de produzir estragos. O novo radar meteorológico, que a cidade comprou por R$2,5 milhões, começará a operar no dia 20, no Sumaré. Depois que ele emitir um alerta, equipes da prefeitura, entre elas as da Defesa Civil e da CET-Rio, vão atuar nos locais mais críticos.
¿ O radar é como um grande olho rodando e enxergando chuva a até 250 quilômetros de distância. Pode saber a velocidade e a intensidade das chuvas, nos permitindo emitir os alertas, deixando o pessoal da prefeitura de prontidão ¿ disse o geólogo Ricardo Dorsi, gerente do sistema Alerta Rio.
A tecnologia usada pelo radar é a Doppler, que consegue atravessar as nuvens, medindo tanto a velocidade como a direção delas. Hoje, as previsões da Geo-Rio usam como base o radar da Aeronáutica no Pico do Couto, em Petrópolis. Porém, a prefeitura não pode controlar o equipamento, que tem uso militar ¿ sua principal função é contribuir para a proteção e segurança de voo. Além disso, o radar fica a 1.800 metros de altura. Por isso, não tem a capacidade de detectar nuvens mais baixas. O novo radar ficará a 700 metros de altura.
¿ Nosso radar vai dar flexibilidade. Se vier chuva de sul, apontamos para essa direção para obter mais dados. Além disso, a informação é imediata, não demorará 20 minutos, como ocorre com o radar da Aeronáutica. Numa situação de emergência, 20 minutos são um tempo crítico ¿ disse Ricardo Dorsi.
Depois que a chuva entra na cidade, a prefeitura fica monitorando suas 32 estações pluviométricas. Os registros são atualizados a cada 15 minutos, sendo imediatamente enviados para a sala de controle do Alerta Rio. Há projetos de fazer com que o envio de dados seja feito em tempo real. Caso o volume de precipitação seja alto, os técnicos emitem os alertas de deslizamentos.
Os técnicos da prefeitura informam que o tempo de previsão de uma grande chuva na cidade varia muito, podendo ser de 30 ou 40 minutos a até 4 horas de antecedência. As nuvens que se formam por causa do grande calor, que provoca a rápida evaporação da água, são mais difíceis de serem antevistas.
Dos 245 pontos críticos, 62 estão na Bacia de Jacarepaguá. De acordo com a Secretaria municipal de Obras, entre os pontos praticamente resolvidos está um em frente à Avenida Borges de Medeiros, na Lagoa, na altura da Sociedade Hípica e do Clube Militar, que passou por intensa obra de drenagem ao longo do ano.
Em 2011, a Rio-Águas planeja acabar com 29 pontos críticos de alagamento, e a cidade assim ficaria com ainda 191 pontos. Destes 29 pontos, 26 ficam na Bacia de Jacarepaguá, cujo entorno sempre sofre com enchentes no verão. Comunidades como Cidade de Deus e Rio das Pedras estão incluídas no programa no ano que vem.
oglobo.com.br/eu-reporter