Título: Brasil tem locais vitais para a segurança dos EUA
Autor: Azevedo, Cristina ; Farah, Tatiana
Fonte: O Globo, 07/12/2010, O Mundo, p. 31
Cabos submarinos e minas estão na lista
Entre tantas correspondências diplomáticas polêmicas expostas pelo WikiLeaks, um relatório feito a pedido do Departamento de Estado americano irritou governos e até a imprensa: uma lista global de locais considerados vitais à segurança nacional dos Estados Unidos. Entre as infraestruturas citadas no telegrama, de fevereiro de 2009, estão cabos submarinos no Rio e em Fortaleza, além de jazidas na cidade mineira de Araxá e em Catalão e Ouvidor, em Goiás.
O telegrama pede que embaixadas americanas façam ao Plano de Proteção de Infraestrutura Nacional (NIPP) - órgão vinculado ao Departamento de Segurança Nacional - um inventário de infraestruturas e empresas no mundo "cuja perda afetaria de maneira significativa a saúde pública, a segurança econômica e nacional".
No Brasil, a preocupação é, segundo o relatório de quatro páginas, focada nos cabos submarinos de telecomunicações Americas-II, que chega ao país em Fortaleza, e GlobeNet, no Rio - indicando o temor de ataques aos sistemas de telecomunicações do continente. Inaugurado há dez anos, o Americas-II tem nove mil quilômetros de extensão e pode transmitir 151.200 chamadas simultâneas, além de ligar Brasil, Guiana Francesa, Trinidad e Tobago, Venezuela, Curaçao, Martinica, Porto Rico e EUA.
Outras instalações apontadas como sensíveis são a mina de manganês e minério de ferro da Rio Tinto e mina de nióbio na cidade mineira de Araxá - que concentra 75% da produção mundial - e Catalão e Ouvidor, em Goiás. O nióbio, elemento usado em ligas de aço e produtos que necessitam de resistência a alta combustão, como componentes de motores de jatos e foguetes, é produto fundamental na indústria bélica, o que justificaria os temores americanos.
Apenas alguns dos possíveis alvos são justificados, como uma usina hidrelétrica canadense descrita como "fonte de energia crítica e insubstituível para o nordeste dos EUA". Entre as instalações sensíveis, há estruturas como cabos submarinos, portos, minas, companhias farmacêuticas e empresas que produzem artigos relevantes à saúde pública, como insulina ou mesmo soro antiofídico.
A divulgação da lista é considerada um quase convite para transformar essas infraestruturas em alvos potenciais para ataques terroristas. A imprensa também se dividiu: enquanto o jornal britânico "Guardian" se recusou a publicar o documento, o "Times" publicou a notícia sob o provocativo título "WikiLeaks lista "alvos para o terror" contra os EUA". Já o "New York Times" preferiu relatar a controvérsia em seu weblog "The Lede", e o analista de assuntos diplomáticos da BBC, Jonathan Marcus, classificou o telegrama como "provavelmente o mais controverso divulgado pelo WikiLeaks até agora".
O premier britânico, David Cameron, condenou a revelação, chamando-a de "prejudicial à segurança dos EUA e do Reino Unido", cujos alvos mencionados são um cabo transatlântico, uma empresa de engenharia naval na Escócia e três instalações do grupo de defesa BAE Systems.
"Condenamos claramente a publicação não autorizada de informações secretas", declarou um porta-voz de Cameron.