Título: Aperto no crédito
Autor: Duarte. Patrícia
Fonte: O Globo, 04/12/2010, Economia, p. 33
BC eleva compulsório, e juro nos bancos deve subir às vésperas do Natal
Às vésperas do Natal, ontem o Banco Central (BC) divulgou um "pacote de maldades" que limita e encarece boa parte das linhas de empréstimos para os consumidores, o que, segundo os bancos, trará altas imediatas nas taxas de juros do financiamento bancário. Além disso, a autoridade monetária retirou R$61 bilhões de circulação com a elevação dos compulsórios - recursos dos bancos que ficam depositados no próprio BC -, o que também reduz o fôlego do mercado de crédito. Grandes redes de varejo, porém, garantem que não vão mudar suas políticas de financiamento para o Natal.
O objetivo formal foi lançar medidas macroprudenciais, estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e pelo BC, para evitar mais inadimplência, já que o volume de crédito da economia cresceu 20% nos últimos 12 meses. Na prática, porém, as ações vão também inibir o consumo e ajudar a frear a inflação a curto prazo.
- A lógica diz que, com liquidez menor (quantidade de dinheiro em circulação), pode haver (aumento de juros ao consumidor final) - resumiu o diretor de Política Monetária do BC, Aldo Mendes.
Em outubro, o juro médio para pessoas físicas era de 40,4% ao ano.
Consumidor terá de dar entrada maior
Também foi elevada a exigência de capital para instituições financeiras em empréstimos com prazos maiores para pessoas físicas. Ela passa de 11% para 16,5%. Ou seja, quando um banco emprestar R$100 nessas modalidades, ele necessariamente terá de ter R$16,50 de capital, exigindo mais esforço financeiro e, consequentemente, encarecendo o crédito na ponta final.
O novo patamar vale para o crédito a pessoas físicas com prazo acima de 24 meses, como o CDC de bens duráveis, e para o empréstimo na compra de veículos - neste caso, quando o prazo for longo, e a entrada, relativamente baixa. A exigência de capital aumenta, por exemplo, para financiamentos entre 24 e 36 meses e entrada inferior a 20% do valor do bem. Entre quatro e cinco anos, a entrada deve ser de até 40% para evitar a maior exigência de capital. Acima desse prazo, a exigência sobe em qualquer caso. Ou seja, o consumidor terá de dar uma entrada maior ao comprar um carro se quiser fugir dos juros mais pesados.
As medidas valem a partir do dia 6, mas a exigência adicional de capital começa a ser efetivamente cobrada em julho de 2011. A expectativa, porém, é que os bancos já possam se adiantar.
- Os juros vão subir já. O objetivo é esse - disse o diretor de Assuntos Econômicos da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Rubens Sardenberg.
Um importante executivo de um grande banco adiantou que já na segunda-feira deve trabalhar com uma nova, e mais alta, tabela de juros para empréstimos. Ainda estudando as medidas, adiantou que espera redução na concessão de crédito, já que o custo para os bancos cresceu. Uma estratégia seria focar em empréstimos de prazo mais curto, de até 24 meses, por exemplo, sem elevar os juros finais, mas exigindo uma entrada maior.
Inadimplência é maior no longo prazo
O presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que essas ações servem para reduzir o risco de inadimplência, maiores nas operações de prazos mais longos. Segundo ele, os atrasos em operações com prazo de um ano ficam, em média, em 1,5%, contra 8% nas com prazo acima de dez anos:
- Temos de adequar os níveis de prazos e garantias à melhor prática prudencial. Queremos dar sustentabilidade ao crescimento do crédito.
Nos últimos 12 meses, o prazo médio dos empréstimos voltados às famílias cresceu 43%, fechando outubro (último dado disponível) em 538 dias. Mas há modalidades, como a de veículos, com financiamento em mais de 70 meses (quase seis anos).
Para o vice-presidente da Anefac (associação que reúne os executivos de finanças), Miguel Oliveira, o quadro é pior para o consumidor de menor renda, que precisa de mais prazo para que as prestações caibam no bolso.
O BC também elevou de 15% para 20% o compulsório sobre depósitos a prazo e de 8% para 12% o adicional sobre depósitos à vista e a prazo. Com isso, os bancos terão de recolher mais R$61 bilhões. Segundo Meirelles, esses ajustes retiraram todas as ações tomadas pelo BC entre o fim de 2008 e o início de 2009, auge da crise.