Título: Em vez de técnicos, políticos
Autor: Damé, Luiza; Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 09/12/2010, O País, p. 3

Após almoço com Lula, Dilma anuncia mais dez ministros, atendendo a pressões dos aliados

Após almoçar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto, a presidente eleita, Dilma Rousseff, anunciou ontem à noite mais dez ministros, somando agora 16 nomes confirmados, de um total de 37 pastas. A nova lista contempla o PMDB com cinco ministérios e tem mais três mulheres, levando a cota feminina para quatro pastas. Além dos dez nomes anunciados oficialmente pelo governo de transição, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, confirmou ontem que será mantido no cargo, mas na cota pessoal da presidente, e não na do PMDB.

Seguindo o modelo adotado por Dilma desde as primeiras nomeações, foram confirmados em nota divulgada no início da noite nove políticos e apenas um técnico: a senadora Ideli Salvatti (PT-SC), no Ministério da Pesca e Aquicultura; a deputada Maria do Rosário (PT-RS), na Secretaria de Direitos Humanos; a jornalista Helena Chagas, na Secretaria de Comunicação Social (Secom); o atual ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (PT-PR), no Ministério das Comunicações; o senador Garibaldi Alves (PMDB-RN), no Ministério da Previdência Social; o senador Edison Lobão (PMDB-MA), no Ministério de Minas e Energia; o deputado Pedro Novais (PMDB-MA), no Ministério do Turismo; Wagner Rossi (PMDB-SP) será mantido no Ministério da Agricultura; o senador Alfredo Nascimento (PR-AM) voltará para o Ministério dos Transportes; e o ex-governador Moreira Franco (PMDB-RJ), na Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE).

PT leva mais, com oito pastas

Até o momento, o PT lidera o ranking de ministros indicados para o governo Dilma: são oito pastas. Nos anúncios anteriores, haviam sido anunciados os nomes de Antonio Palocci (Casa Civil), Gilberto Carvalho (Secretaria Geral), José Eduardo Cardozo (Justiça), Miriam Belchior (Planejamento) e Guido Mantega (Fazenda), além de Alexandre Tombini para o Banco Central.

Em segundo lugar está o PMDB, que conta com seis ministros filiados ao partido, contando com Jobim. O PR emplacou um ministro e há dois sem filiação partidária - a jornalista Helena Chagas e Alexandre Tombini.

Na lista foram incluídos dois derrotados nas eleições: Nascimento e Ideli Salvatti, que disputaram os governos do Amazonas e de Santa Catarina, respectivamente. Entre os ministros indicados com filiação partidária, seis fizeram carreira política em São Paulo, dois no Maranhão e dois no Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro, Paraná, Amazonas, Rio Grande do Norte e Santa Catarina contam com um cada.

Dilma preferiu liberar um pacote de ministros políticos para se livrar da pressão dos aliados. Por isso, nomes como o do provável ministro de Relações Exteriores, Antônio Patriota, ficaram de fora. Para atender à demanda dos partidos governistas seria necessário que houvesse 80 ministérios, contabilizou ontem um coordenador da transição. No momento são 37 pastas, mas Dilma pode criar mais duas: Micro e Pequenas Empresas e Secretaria de Aviação Civil, que pode ser fundida com a Secretaria de Portos.

Faltando 20 nomes para completar o desenho da Esplanada dos Ministérios, Dilma ainda não conseguiu impor seu estilo na equipe. Os nomes até agora revelam uma forte influência de Lula, que manteve cinco auxiliares diretos, e do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que tem dois aliados fiéis entre os nomes oficializados.

- O Sarney sempre tem força. Mas não são dois ministérios para o Maranhão, são para o país - afirmou Lobão.

O futuro ministro de Minas e Energia reconheceu que, embora Dilma tenha anunciado os nomes do partido, ainda há insatisfações internas:

- As pastas anteriores eram as preferidas do PMDB. Mas não tinha reserva de mercado. Mais na frente a gente acerta isso.

O vice-presidente eleito, Michel Temer (PMDB-SP), considerou, antes do anúncio oficial, que a participação do PMDB no governo Dilma "estava de bom tamanho". À noite, ao chegar para o jantar do PMDB de homenagem ao presidente Lula, foi lacônico ao comentar a possibilidade de ampliar a participação do seu partido no Ministério:

- O futuro a Deus pertence.

Temer procurou valorizar as pastas do partido, dizendo que a Previdência trabalha diretamente com 23 milhões de brasileiros, e o Turismo vai crescer de importância com a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Também valorizou o cargo obtido por Moreira Franco:

- Moreira está satisfeitíssimo, posso assegurar. O Moreira está muito adequado na SAE, tanto que aceitou.

Em discurso no jantar de despedida oferecido pelo PMDB, Lula falou da importância do partido no seu governo e no futuro governo de Dilma:

- Foi graças à teimosia do PMDB que foi possível construir este governo. E foi graças à participação do PMDB na aliança que Dilma teve mais votos do que eu em 2002. A chance dessa aliança (PT e PMDB) dar certo é de 99,99%. De dar errado, nenhuma.

Alguns dos convites foram feitos ontem mesmo, na Granja do Torto. Depois do almoço, Dilma recebeu Nascimento, Garibaldi e Maria do Rosário. Na saída, Garibaldi afirmou que Dilma espera que ele siga o trabalho que já vem sendo feito pelo ministério:

- Ela (Dilma) disse que espera que eu continue o que já está sendo realizado na Previdência com relação à reforma da gestão. Quer que (o Ministério) melhore com o fim das filas e o pagamento de forma mais ágil.

O senador disse que tem um desafio pela frente, mas o desafio adicional de ter de enfrentar o rombo da Previdência, estimado em R$42,5 bilhões até o final do ano, admitiu não conhecer:

- O rombo, eu não sei.

Jobim disse que no encontro com Dilma entregou um programa de ações do trabalho dele na Defesa:

- Tem coisas que você não pode deixar de aceitar. Tem algumas para as quais não deve ser candidato e outras não pode recusar se convidado for, caso do Supremo (Tribunal Federal).

*Enviado especial