Título: Haiti vai às ruas contra governista no 2º turno
Autor: Lages, Christine
Fonte: O Globo, 09/12/2010, O Mundo, p. 39

Ex-primeira-dama chega na frente no 1º turno, e pode enfrentar 2 adversários na rodada final em janeiro

PORTO PRÍNCIPE e RIO. As suspeitas de que o candidato à Presidência do Haiti apoiado pelo governo passaria para o segundo turno - apesar de sua impopularidade - foram confirmadas. E a resposta ao polêmico resultado provocou novos distúrbios em Porto Príncipe e outras cidades. Enquanto eleitores haitianos denunciavam fraudes no pleito do dia 28, o Conselho Eleitoral anunciava na noite de terça-feira que Jude Célestin enfrentará a ex-primeira-dama Mirlande Manigat no segundo turno. A derrota do candidato Michel "Sweet Micky" Martelly, um cantor que conquistou milhares de jovens haitianos, levou às ruas multidões em manifestações violentas.

Os protestos foram registrados em diversos pontos da capital e de Cap-Haitien, aumentando o clima de tensão num país devastado por terremoto e uma epidemia de cólera. À tarde, o presidente René Préval pediu calma à população. No centro de Porto Príncipe, ataques e incêndios marcaram o anúncio do segundo turno. A sede do partido de Préval, onde se concentrou a campanha de Célestin, foi incendiada, enquanto policiais tentavam conter a confusão. O aeroporto internacional foi fechado. Duas mortes foram registradas.

- Queremos falar para eles que Martelly é o presidente! Não aceitaremos outra coisa! Caso contrário, vamos incendiar este país! - ameaçou o manifestante Frances Odis.

Ex-primeira-dama disse ter se espelhado em Dilma

De acordo com os resultados divulgados pelo conselho, Manigat obteve 31,37% dos votos e Célestin, 22,48%. Já Martelly teve 21,8%. Espelhando-se na presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, Manigat enfatizou em sua campanha a liderança feminina na América Latina. Segundo o conselho eleitoral, os resultados foram anunciados com base em 1 milhão de votos registrados, sobre um total de 4,7 milhões de potenciais eleitores - uma abstenção de quase 80%.

Autoridades reconheceram que o número parecia incompleto, mas lembraram que milhares morreram no terremoto de janeiro e continuavam registrados, enquanto alguns eleitores aguardam pelo título.

ONGs são impedidas de trabalhar em dia de caos

Os resultados foram imediatamente contestados. A embaixada americana afirmou que os números não estão de acordo com dados fornecidos por observadores. Segundo os EUA, Célestin seria eliminado no primeiro turno. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que os problemas eram piores do que relatados inicialmente.

Já para o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, a contagem é provisória e existe um processo para contestar o resultado. O partido derrotado tem três dias para apelar, e há, ainda, a possibilidade de haver um segundo turno em 16 de janeiro com três candidatos, devido à ínfima diferença entre Célestin e Martelly. Não existe, porém, base constitucional para isso, e deverá haver um acordo.

Segundo organizações estrangeiras que ajudam na reconstrução do país, as manifestações atrapalharam o trabalho da maioria dos voluntários. Coordenador para as áreas de saneamento e água da ONG brasileira Viva Rio, Valmir Fachini foi orientado pelas tropas de paz da ONU a ficar em casa.

- As ruas estão ocupadas pelos manifestantes. Não podemos sair de casa porque os carros são alvejados. Por orientação da Minustah (a missão de paz da ONU), liberamos todos os funcionários. Isso afeta as pessoas que moram em lugares em que não conseguimos distribuir água - contou ao GLOBO.

Com agências internacionais