Título: Setor reclama de burocracia
Autor: Lima,Maria
Fonte: O Globo, 11/12/2010, O Pais, p. 12

A declaração do produtor Luiz Carlos Barreto de que a classe cinematográfica é contra a permanência de Juca Ferreira à frente do Ministério da Cultura (MinC) está relacionada às políticas para o setor defendidas pelo ministro. Um dos principais pontos tanto da gestão de Gilberto Gil, no cargo do início do primeiro governo Lula até julho de 2008, quanto da de Ferreira, na função desde então, foi o fortalecimento da Agência Nacional de Cinema (Ancine), inclusive com a criação do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Para parte da classe, essa política significou uma concentração de poderes no governo e o aumento da burocratização nos investimentos em cinema.

O FSA investiu R$81,5 milhões na produção e distribuição de filmes e obras para TV em 2010, a partir de recursos oriundos de contribuições recolhidas na atividade econômica do audiovisual. O problema seria que a concentração dos investimentos na Ancine, órgão gestor do fundo, atrasaria a elaboração de projetos. As prestações de contas demorariam meses para ser analisadas e consumiriam pilhas de papéis.

¿ Em vez de o governo estimular que a atividade funcione livremente e, claro, puna alguém que por acaso desrespeite as leis, ele criou um emaranhado de normas e concentrou a gestão dos recursos em si. O cinema caiu nas mãos da burocracia da Ancine. E há sempre um risco de uso político na atividade ¿ explica um integrante do setor, que prefere não se identificar.

Ferreira também é criticado no meio cinematográfico por já ter se expressado publicamente contra a existência de mecanismos de incentivo fiscais como a Lei do Audiovisual ¿ cujo Artigo 1º, de investimento em produção, expiraria no fim deste ano, mas está em votação no Congresso para que seja renovado até 2016.

O que talvez seja exagero no discurso de Barreto, porém, é que 95% da classe seja contra a permanência de Ferreira.

¿ Eu acho que o Gilberto Gil fez um trabalho bastante interessante e inovador, e o Juca deu continuidade a isso. Então é melhor mantê-lo do que colocar alguém indicado por algum partido ¿ diz o produtor Flávio Tambellini. ¿ O problema é que o cinema é uma atividade industrial. Talvez ele seja um assunto complexo demais para ser discutido junto a outras questões culturais dentro da estrutura do MinC.