Título: Séries de reportagens fizeram raio X das favelas
Autor: Alves, Maria Elisa
Fonte: O Globo, 12/12/2010, Rio, p. 19
Ausência de direitos foi abordada
As dificuldades dos moradores das favelas têm sido reveladas em detalhes, desde 2007, por séries de reportagens do GLOBO. A primeira, ¿A ditadura nas favelas¿, mostrava que, mais de duas décadas após a redemocratização do país, a população dessas áreas vivia num regime de exceção, sob o domínio do tráfico, de milícias ou subjugada por uma polícia corrupta ou despreparada.
O trabalho revelou ainda que o número de desaparecidos passou de sete mil nos últimos anos no estado, maior que os 136 casos oficiais registrados na ditadura militar. A tortura, o exílio e os assassinatos (marcas do período de chumbo) faziam e ainda fazem parte do dia a dia de muitas favelas. Direitos fundamentais, como o de ir e vir e o de livre expressão, eram (e são) desrespeitados.
No ano seguinte, a série ¿Favela S.A.¿ enfocou a economia nesses territórios dominados. Num mercado sem leis, onde ainda vigora uma espécie de capitalismo selvagem, pulsam negócios que chegam a movimentar cerca de R$3 bilhões por ano. O controle da venda de gás e o ¿gatonet¿ ¿ TV a cabo clandestina ¿ são importantes fontes de renda. Em apenas duas favelas dominadas pelo tráfico, o Morro do Dendê e o Guarabu, o faturamento com serviços chegava a cerca de R$1,4 milhão por ano.
Já em agosto do ano passado, a série ¿Democracia nas favelas¿ revelou o dia a dia das comunidades Dona Marta (Botafogo), Batam (Realengo), Cidade de Deus (Jacarepaguá), Chapéu Mangueira e Babilônia (Leme), que têm UPPs, e investigou se a experiência tinha contribuído para o resgate de valores democráticos. Apesar dos avanços, havia resistência do tráfico e denúncias de excessos da polícia. Também foi tema da série a Favela Tavares Bastos, no Catete, onde fica a sede do Bope.
A retomada, pelo estado, de um território dominado há 30 anos pelo tráfico teve contornos dramáticos mês passado. Ao contrário do que se temia, não houve um banho de sangue no Complexo do Alemão. Os traficantes fugiram e evitaram o confronto com 2.600 policiais civis e militares, além de homens das Forças Armadas. Os cadernos especiais publicados no GLOBO e as reportagens diárias mostraram o poderio bélico dos bandidos: armas sofisticadas foram apreendidas no Alemão. Além disso, toneladas de drogas foram recolhidas e incineradas.