Título: Candidato a informante
Autor: Farah, Tatiana
Fonte: O Globo, 14/12/2010, O Mundo, p. 33

Banqueiro teria oferecido dados sobre Irã

MADRI. O presidente do maior banco privado de Portugal tentou, com o conhecimento do governo de seu país, fazer um acordo com as autoridades americanas, para negociar com o Irã. Em troca, passaria informações sobre o sistema financeiro iraniano aos Estados Unidos, revelam documentos vazados pelo WikiLeaks, aos quais o jornal espanhol ¿El País¿ teve acesso. Os telegramas mostram que Carlos Santos Ferreira, presidente do Banco Comercial Português, conhecido como Millennium BCP, tentou conciliar interesses contraditórios, como negociar com o Irã sem afetar as relações de seu país com os EUA. A operação, segundo um telegrama da embaixada dos EUA em Lisboa, de fevereiro deste ano, era do conhecimento do primeiro-ministro José Sócrates.

Em abril de 2009, uma delegação do BCP viajou a Teerã para discutir o interesse dos iranianos em negociar com a instituição. Dez meses depois, Santos Ferreira discutiu o assunto com a conselheira política e econômica da embaixada, mencionando os benefícios que Washington poderia ter com a operação. ¿Santos Ferreira deseja estabelecer uma relação com o Irã para ajudar o governo dos EUA a rastrear fundos e atividades financeiras iranianas¿, diz um dos telegramas. O banqueiro chegou a oferecer que ¿o governo dos EUA controle as contas iranianas no Millenium¿, mediante um sistema que fosse satisfatório a ambas as partes. O documento afirma que ele havia informado a Sócrates sobre o interesse iraniano e que, ¿embora Ferreira não tenha dito explicitamente¿, a embaixada acreditava que a Chancelaria estivesse a par da proposta.

A notícia, publicada ontem, fez o Bloco da Esquerda exigir que o BCP explique a acusação. O banco desmentiu a notícia, enquanto Sócrates afirmou que ¿não tem, nem nunca teve, conhecimento de qualquer atividade comercial do BCP no Irã¿.

Em outro telegrama, diplomatas americanos agradecem a Sócrates, em setembro de 2007, o uso da Base de Lajes para repatriar presos de Guantánamo, ¿uma decisão difícil que nunca se tornou pública¿, escrevem.