Título: Mulheres cercam Lula
Autor: Mendes, Taís; Borges, Waleska
Fonte: O Globo, 22/12/2010, Rio, p. 21
Moradoras pedem cursos de capacitação para jovens
Um grupo de 40 moradoras do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro, integrantes do movimento "Mulheres de Paz", cobrou ontem do presidente Lula, com quem se encontrou no Morro da Baiana, que a ocupação das duas comunidades pelas forças de segurança seja definitiva, sem recuos futuros. Ao cobrar do presidente programas de formação profissional para os jovens do lugar, elas disseram que muitos ficaram desorientados e desconfiados depois da expulsão dos traficantes.
- Com a saída deles, como ficamos? Agora, dez da noite, não tem mais ninguém nas ruas. Não tem mais pagode. É como se fosse um toque de recolher. Com isso, fica a dúvida: é realmente paz ou apenas saímos de um sistema para cair em outro? - disse Jussara Raimunda, a Bizukka, de 51 anos, moradora e ativista comunitária da Vila Cruzeiro.
Bizukka e outras moradoras, vestidas com camisas do movimento, abordaram o presidente assim que ele desembarcou de uma gôndola na estação da Baiana. Ele respondeu que um decreto já assinado pelo prefeito Eduardo Paes estabelece as bases para a criação de cursos de capacitação e outras políticas públicas na região.
A artesã Joselma Mendonça de Queiroz, do Morro do Adeus, disse que os jovens estão com medo de que "volte aquilo tudo".
- A cultura do medo diminuiu, mas ainda está muito presente - disse.
As mulheres também pediram que a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Itararé, no complexo, seja ampliada, passando a oferecer pediatras e ortopedistas.
Bizukka disse que a prioridade agora é capacitar os jovens da região:
- Enquanto o Complexo do Alemão virou ponto turístico, a Vila Cruzeiro ficou abandonada. Com a debandada dos meninos, a comunidade tem agora uma nova perspectiva de vida. Os jovens que ficaram sabem agora que isso (a marginalidade) não leva a nada. Muitos garotos estão querendo mudar de vida.
Ela afirmou que o interesse maior, nas áreas técnicas, está voltado para cursos de formação para eletricistas e carpinteiros. Ela também revelou que muitas meninas, de 12 a 15 anos, ficaram grávidas de traficantes expulsos.
- Não tenho nada contra a UPP, mas os moradores estão muito retraídos. Mesmo assim, eu prefiro a situação de agora - disse.