Título: Despedida em ritmo acelerado
Autor: Gois, Chico de ; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 31/12/2010, O País, p. 4
Lula cumpre 11 compromissos no penúltimo dia de mandato; agendas foram marcadas simultaneamente
BRASÍLIA. Nas últimas horas no cargo de presidente, Lula não tirou a faixa (virtual) do peito, mas deixou o sóbrio terno e gravata em casa. De camisa branca estilo guaiabeira - uniforme utilizado por ele em eventos geralmente realizados em cidades quentes -, deu-se o direito de despachar ontem no Palácio do Planalto como se o dia fosse de folga. Mas não era. A agenda previa 11 compromissos. Todos cumpridos como de praxe, ou seja, com atrasos. Um dos primeiros atos do dia foi a inauguração simultânea de obras do governo em três estados diferentes. À distância, claro.
A decisão mais esperada do dia, no entanto, Lula guardou para hoje: deverá conceder refúgio político ao terrorista Cesare Battisti, condenado na Itália à prisão perpétua por quatro homicídios na década de 70. Hoje, o ainda presidente receberá o advogado-geral da União, Luis Inácio Adams, para definir o assunto. Provavelmente, será sua última canetada.
De manhã, depois de ter recebido militantes da Vigília da Granja do Torto, a assessora Clara Ant e de ter despachado com o ministro interino da Casa Civil, Carlos Eduardo Esteves Lima, Lula participou de uma cerimônia de inauguração simultânea de três empreendimentos - uma agência do INSS em Caetés (PE), a Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó (SC) e a terceira cascata de unidade de enriquecimento de urânio em Resende (RJ).
Ao lado do ministro da Previdência, Carlos Eduardo Gabas, com quem trocou gracejos, e dos ministros de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, e de Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, o presidente Lula, ao discursar, disse que fez o que era considerado impossível: eleger uma mulher para a Presidência da República. Ele lembrou que, ao assumir seu primeiro mandato, em 2003, dissera que primeiro iria fazer o necessário, depois o possível e, quando menos se esperasse, o impossível.
- E a última obra do impossível que nós fizemos aqui foi eleger uma mulher presidente da República do Brasil. É tudo o que nós precisávamos - declarou, referindo-se a Dilma Rousseff.
Para Lula, ele entrega a Dilma um momento muito propício no Brasil.
- Acho que companheira Dilma vai fazer um extraordinário governo. O Brasil tem de se preparar para a Copa do Mundo, para as Olimpíadas de 2016, para ser logo a quinta economia do mundo, e isso só será possível se todos nós estivermos otimistas, pensando positivamente, trabalhando pensando no futuro. Acho que o Brasil atingiu sua maioridade e muita maturidade. Aquilo que muita gente achava que era impossível acontecer no Brasil, tudo aconteceu.
O evento de ontem foi transmitido simultaneamente por um telão às outras cidades que sediavam as inaugurações anunciadas. Quando o presidente da Foz do Chapecó Energia, Paulo Godoy, fazia seu discurso, lá de Santa Catarina, o equipamento pifou, cortando sua voz. Lula fez piada com Gabas:
- Fizeram a licitação pelo preço mais barato, e é isso que dá.
A usina entregue ontem, aliás, não está totalmente concluída. A quarta turbina entrará em operação em fevereiro do ano que vem.
Lula, que alterava momentos de descontração com outros mais introspectivos, ficou feliz com a inauguração da agência do INSS em sua cidade natal. Para falar sobre o empreendimento, o gerente local do INSS chamou seu Cícero, um agricultor que recebeu a aposentadoria na véspera de Natal.
Dirigindo-se a Lula como "doutor Luiz Inácio da Silva", seu Cícero demonstrou a simplicidade do sertanejo:
- Não sei o que vou dizer agora - iniciou, meio encabulado.
Ele revelou que é dono do terreno que antes teria pertencido ao avô de Lula, João Grande, e disse que conhece os primos e parentes do presidente que ainda moram em Caetés.
- Eu tava tirando leite de três vaquinhas que eu tenho, e as lágrimas me caíram ao pensar que eu tava me aposentando por causa do doutor Luiz Inácio da Silva - contou.
Lula, que pegou o microfone para saudar o conterrâneo, pediu para não ser chamado de doutor, mas não foi ouvido. E ainda sugeriu que o agricultor economizasse um pouco da aposentadoria para lhe pagar uma cerveja quando ele voltar a Caetés.
Depois de se reunir com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, para definir a Medida Provisória que fixa em R$540 o valor do salário mínimo para o próximo ano, Lula, agora acompanhado de dona Marisa, ainda foi ao Ministério da Justiça para o lançamento do novo Registro de Identidade Civil (RIC). Lula recebeu o documento 001, e Marisa Letícia, o 002. E foi encarregado pelo ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, de entregar o do vice José Alencar, internado no Hospital Sírio-Libanês.
Na parte da tarde, o presidente concedeu audiência para o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cezar Peluso, e para a presidente eleita, Dilma Rousseff. O teor das conversas não foi divulgado.
Enquanto Lula mantinha sua agenda a todo vapor, do lado de fora do Palácio, em meio aos preparativos para a posse de Dilma, amanhã, populares, turistas e funcionários públicos esperavam, ansiosos, uma oportunidade para tirar fotos ao lado do presidente que deixará o mandato sem perder o poder.