Título: Pelo script, Lula entra e sai calado
Autor: Fabrini, Fábio; Maltchik, Roberto
Fonte: O Globo, 01/01/2011, O País, p. 12
BRASÍLIA. Pelo roteiro oficial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrará mudo e sairá calado do Palácio do Planalto, limitando sua participação à entrega da faixa presidencial a Dilma Rousseff e, no máximo, cumprimentando-a com palavras de felicitações ditas somente a ela na hora da cerimônia. Mas isso é o que o cerimonial da Presidência e do Itamaraty desenha. Como Lula, em seus oito anos de mandato, fugiu de todos os scripts, é incerto se sua participação na festa da posse de hoje será a de um coadjuvante.
Ministros que estiveram com Lula nesta última semana saíram de seu gabinete com a constatação de que tudo pode ocorrer. Afinal, todos sabem: o presidente é emotivo, faz questão de se misturar ao povo e, como já disse em várias ocasiões, não pode ver um microfone que não resiste à tentação de fazer um discursinho, de improviso, claro.
Ontem, ao discursar para os servidores do Palácio do Planalto, despedindo-se deles e posando para fotos com os funcionários que integravam os Escalões Avançados (Escavs) - que viajam na frente da comitiva presidencial para examinar o local onde o presidente discursará e ajeitar as coisas para que não haja surpresas desagradáveis - o presidente fez uma brincadeira que resume seu estado de espírito.
- Amanhã (hoje), às 16 horas, passarei a faixa para a Dilma. Se ela vacilar, eu saio correndo. Quero ver ela correr atrás de mim na Esplanada, atrás daquela faixa. Por isso é que eu me preparei fisicamente. Dilma disse que parou de andar, então ela vai estar menos preparada do que eu fisicamente.
Mas, a favor de Lula, diga-se que ele é disciplinado - dentro de sua definição própria de disciplina. Lula sabe que tem sido acusado de interferir no governo de Dilma, indicando ministros e anunciando nomes que continuarão no governo. Por isso, tem de deixar de fazer sombra para a mulher que ajudou a eleger. Na avaliação dos funcionários do cerimonial, é praticamente zero a chance de Lula decidir discursar no Parlatório. O argumento é técnico: Dilma só vai discursar depois de se despedir de Lula, que partirá, em comboio, para São Bernardo do Campo (SP).
Se resistir à tentação de dar uma palavrinha final no microfone destinado a Dilma, o presidente pode não se conter e se jogar nos braços do povo, como ocorreu em suas duas posses, em 2003 e 2007, para desespero dos seguranças.