Título: É uma vitória de todos, sobretudo dos estudantes
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 06/01/2011, O Mundo, p. 31

CORPO A CORPO: CARLOS ROMERO

BUENOS AIRES. Na visão do professor Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela (UCV), a decisão do presidente Hugo Chávez de vetar a Lei das Universidades foi consequência da ação contundente de estudantes, conselhos universitários e especialistas do governo e da oposição.

Apesar de destacar a vitória opositora, Romero alertou que Chávez pode usar a Lei Habilitante para implementar algumas das reformas previstas na lei vetada.

O GLOBO: Não é comum ver um recuo deste tipo por parte de Chávez. Como o senhor explica esta decisão? CARLOS ROMERO: O presidente disse que vetou a lei porque a considerou inconsistente, mas está mentindo.

Na verdade, o presidente a vetou porque nunca imaginou que a lei seria tão criticada. Nos últimos 15 dias, estudantes, diretores de universidades e especialistas da área vinculados ao governo e à oposição questionaram a medida. Os conselhos diretivos das três universidades privadas mais importantes do país (Andrés Bello, Santa Maria e Metropolitana) divulgaram uma carta aberta ao presidente pedindo que ele vetasse a lei. A reação do presidente é uma resposta a este movimento.

● Quais são as principais críticas à lei? ROMERO: O texto aprovado estabelecia, por exemplo, que todos os votos têm o mesmo peso nas universidades.

Um empregado administrativo teria a mesma importância que um estudante ou um professor na hora de eleger as autoridades universitárias.

Outro aspecto questionado é o excessivo poder dado ao ministro da Educação, que assumiria 71 faculdades hoje em poder do Conselho Universitário.

Aliás, a lei vetada eliminava o Conselho Universitário e estabelecia a criação de um novo conselho com representantes de setores comunais e do governo, que teriam grande influência, entre outras coisas, na elaboração dos planos de estudo. A coluna vertebral da lei vetada é a educação socialista, que implica o fim da liberdade dos professores para exercer sua profissão e modificaria a interpretação de nossa realidade e de nossa História.

● Esta é uma vitória da oposição ou dos estudantes? ROMERO: É uma vitória de todos, mas sobretudo dos estudantes. Agora, cuidado! A Lei Habilitante continua vigente e Chávez poderia usá-la para fazer as modificações que quiser. (Janaína Figueiredo)