Título: Com dólar baixo, Brasil vira paraíso de importador
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 09/01/2011, Economia, p. 31
Pela 1ª vez na História, total de empresas que trazem produtos do exterior para vender no país é o dobro do das que exportam
Atraídos pelo dólar fraco e pela explosão de consumo interno nos últimos anos, os importadores deixaram os exportadores para trás. Pela primeira vez na História, o número de empresas que trazem produtos do exterior para vender no país é o dobro do das que exportam. Estudo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) estima que o país fechou 2010 com um recorde de importadores: 39.200. Em 2004, não passavam de 22.410, alta de quase 75% em seis anos. O número vem crescendo desde 2005.
- O Brasil virou o paraíso do câmbio. Essa é a explicação para o aumento tão expressivo de importadores e o desaparecimento dos exportadores - lamenta o vice-presidente da AEB, José Augusto de Castro.
A AEB trabalha com uma taxa de câmbio ideal de R$2,20. Mas a moeda americana tem oscilado bem abaixo desse nível, sendo que, desde 21 de dezembro, não ultrapassa R$1,70.
De olho no crescimento econômico e nos investimentos que serão realizados no país nos próximos anos devido à Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíadas do Rio em 2016, a Meggadig abriu as portas em junho e começou a importar da China máquinas e equipamentos pesados exclusivamente para a construção civil. O superintendente da companhia, Tadeu Buonicori, diz que os negócios são promissores. E o dólar baixo mais do que ajudou os preços já imbatíveis da empresa chinesa que representa.
- O Brasil comprou, em 2010, 20 mil máquinas do mesmo porte das cem vendidas pela Meggadig. Só a fábrica que representamos produziu 50 mil no ano passado na China. É escala. São equipamentos de alta qualidade, com peças já conhecidas, de fácil manutenção no Brasil. Nossos preços podem ser 30% a 50% mais baixos, o que em uma máquina que custa R$500 mil faz muita diferença - disse, lembrando que a empresa abriu uma filial em Recife, em novembro, e planeja para este ano as de Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Manufaturados perdem espaço nas exportações
Baseada no Rio, a importadora de perfumes e cosméticos Neutrolab mudou sua política de compras lá fora no ano passado. Agora, abastece seus estoques para um período de seis meses, o dobro do que vinha fazendo.
- Tivemos falta de produto para atender à demanda crescente dos clientes e, em junho de 2010, mudamos a nossa política. Com o dólar mais baixo, vale a pena. Fechamos o ano com 20% de crescimento - conta Viviane Soares, diretora da empresa.
No setor de brinquedos, o gerente de Compras da Cromus, Mario Lorenzi, afirma que a empresa teve seu melhor Natal dos últimos anos. Especializada em produtos de decoração natalina e de Páscoa, a companhia importou mais neste fim de ano e ofereceu maior variedade.
Dados da Associação Brasileira dos Importadores e Exportadores de Brinquedos (Abrimpex) mostram que as importações do setor estavam em US$488,6 milhões até novembro do ano passado, 35% a mais do que em 2009. O volume importado bateu as 90 mil toneladas, 45% a mais. Já as exportações ficaram em US$34,2 milhões, com aumento de 0,70% no período. As quantidades caíram 8,08%.
Os exportadores, que, em 2004, eram 18.608, devem passar para 19.200 seis anos depois. O aumento de 3% está mais ligado ao fato de, em 2007, o governo ter incluído no rol dos exportadores as vendas de micro e pequenas empresas pelo correio do que pelos êxitos do setor. A desindustrialização, segundo Castro, da AEB, é outro fato decisivo para este quadro. Os produtos manufaturados brasileiros acabam perdendo a queda de braço com os estrangeiros dentro e fora do país. Na pauta dos itens que o Brasil vende para o exterior, vêm perdendo espaço para as commodities e, pela primeira vez desde 1978, ficaram abaixo das matérias-primas.
- Impossível competir com o dólar no atual patamar e com a carga tributária que somos obrigados a exportar - afirma.
As exportações de manufaturados passaram de 54,32% do total em 2003 para 39,5% este ano, segundo estimativas da AEB para 2010. Já os produtos básicos saltaram de 28,94% para 44,5% no mesmo período.
Os produtos importados responderam por 22,7% de tudo o que foi consumido no Brasil entre julho e setembro de 2010, recorde desde 2003, quando teve início a série histórica trimestral elaborada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Segundo a instituição, houve um aumento de 12,9% no chamado consumo aparente do Brasil (soma da produção com a diferença entre importações e exportações). Deste total, 58,4% vieram dos importados, contra 41,6% da indústria nacional.