Título: Controle de commodities preocupa governo
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 12/01/2011, Economia, p. 28

Proposta de regulação de preços que França levará ao G-20 prejudica exportações brasileiras, já afetadas por dólar baixo

BRASÍLIA. Mais um ingrediente na agenda internacional vem se somar, nos próximos dias, à difícil missão do governo brasileiro para conter o derretimento do dólar frente ao real e, com isso, garantir a sobrevivência de empresas exportadoras afetadas pelo câmbio. A França quer levar à reunião do G-20, prevista para o mês que vem, em Paris, uma proposta de regulação do mercado mundial de commodities. A ideia preocupa as autoridades brasileiras, pois isso poderá significar o estabelecimento de travas e limites para itens fundamentais à pauta exportadora do Brasil, que representaram 44,6% do total vendido em 2010.

Ainda está sendo fechada a posição brasileira a ser apresentada aos demais integrantes do bloco formado pelas 20 maiores economias do mundo, que inclui nações desenvolvidas e em desenvolvimento. Segundo uma fonte da área de comércio exterior, os Estados Unidos seriam os principais - e talvez os únicos - aliados do Brasil. Os dois países são os maiores exportadores de commodities agrícolas do mundo e competem entre si em bens como soja, carnes, milho e suco de laranja.

Se dependesse dos franceses, que assumiram no fim de 2010 a presidência do G-20, o tema já teria entrado na pauta. Não tiveram êxito porque a guerra cambial - conforme a expressão cunhada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega - era o assunto do momento na última reunião do bloco, na Coreia do Sul. O protagonismo era dividido por China e EUA.

Dados de mercado mostram que, nos últimos dois anos, o real se valorizou 37,17% frente ao dólar, enquanto o yuan subiu apenas 3,18%, e o euro caiu 7,76%. Embora a moeda americana barata represente redução de custos para os importadores e seja um instrumento importante para evitar altas mais acentuadas da inflação, vários setores exportadores, como o têxtil, o calçadista e o moveleiro, estão sendo prejudicados.

O que tem salvado a balança comercial brasileira de déficits são justamente as commodities minerais, metálicas e de alimentos. São esses produtos, cotados em bolsas internacionais, que garantem a manutenção da receita exportadora e compensam a variação do câmbio.

Economista recomenda ação coordenada, não controle

Segundo o economista Fábio Silveira, da RC Consultores, é necessário criar instrumentos para diminuir a volatilidade dos preços das commodities. Isso porque as elevações não decorrem apenas do aumento da demanda mundial, especialmente da China, mas também porque há um intenso movimento especulativo nessa área.

- A lembrança e a preocupação são bem-vindas, mas não seria o caso de um tabelamento, pois isso significaria introduzir travas ao mecanismo de mercado. O melhor é uma ação coordenada, o que levaria a um processo complexo e demorado - argumenta Silveira.

O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, advertiu que a própria sinalização, dada pessoalmente pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, em novembro último, já é bastante perigosa, pois reforçaria a especulação.

- Infelizmente, o Brasil seria um ator passivo nesse cenário - afirma Castro.

Também na linha internacional, o Brasil se prepara para acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC) para que sejam aplicadas punições aos países que manipulam artificialmente suas moedas. O alvo é a China, e a sinalização foi dada no fim de semana por Mantega, em entrevista ao jornal britânico de negócios "Financial Times". Técnicos do governo esclareceram, porém, que as discussões estão apenas no começo.

Internamente, o governo estuda desonerações para ajudar os exportadores, e uma das saídas em estudo consiste em tirar de vez impostos de produtos usados na exportação já no início da cadeia produtiva, caso persista a resistência de alguns estados em devolver o ICMS devido ao exportador no ressarcimento. Mas as discussões ainda não terminaram.