Título: Mercado respira com 1,25 bi para Portugal
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Fonte: O Globo, 13/01/2011, Economia, p. 17
País faz leilão de títulos bem-sucedido e bolsas sobem mais de 5%. Euro avança
LISBOA, LONDRES, NOVA YORK e RIO
Portugal, apontado por analistas como o próximo candidato, depois de Grécia e Irlanda, a um socorro financeiro internacional, conseguiu mais fôlego. Em um bem-sucedido leilão de títulos, o governo português obteve ontem 1,25 bilhão (US$1,62 bilhão), com um ágio menor que o esperado. O sucesso português puxou as bolsas europeias - Madri saltou mais de 5% -, dos Estados Unidos e do Brasil, devido à expectativa de que, pelo menos por enquanto, o fantasma do contágio da crise da dívida tenha sido afastado.
Foram vendidos 650 milhões (US$853,5 milhões) em títulos com vencimento em 2014 e 599 milhões (US$787 milhões) que vencem em 2020. O rendimento destes ficou em 6,716%, menos que os 6,806% pagos pelo Banco Central Europeu (BCE) na semana passada e abaixo de 7%, patamar considerado insustentável pelos mercados - os títulos da Irlanda estavam nesse nível quando o país teve de pedir socorro.
O ministro de Finanças português, Fernando Teixeira dos Santos, disse que o leilão foi um sucesso, com estrangeiros respondendo por 80% da demanda. Analistas, no entanto, ressaltaram que os problemas de Portugal não acabaram. O país terá de fazer outros leilões este ano, a fim de obter 20 bilhões (US$26 bilhões) para pagar vencimentos.
- O mais importante é que o patamar de 7% não foi ultrapassado. O BCE tem sido muito ativo nos últimos dias em seus esforços para estabilizar os mercados - disse à agência Reuters Michael Leister, estrategista do WestLB, ressaltando que ainda é preciso ver se a redução dos custos de financiamento de Portugal vai se manter.
Em Nova York, o euro avançou 1,3%, a maior alta desde 13 de dezembro, para US$1,3142. Já o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, subiu 0,72%, para 11.755 pontos, o maior patamar em dois anos. As bolsas europeias também fecharam em alta, com destaque para Madri (5,42%), já que o sucesso de Portugal alivia as pressões sobre a Espanha. Os mercados asiáticos também avançaram, mas puxados por resultados corporativos, já que fecharam antes do resultado do leilão.
Este reforçou a posição do primeiro-ministro português, José Sócrates, de não pedir ajuda externa. Ele defende que as medidas de austeridade já tomadas pelo governo serão suficientes para reduzir o déficit. Essas medidas incluem demissões e congelamento de salários no setor público, o que tem ocasionado protestos frequentes.
Investidores se voltam para Itália e Espanha
A expansão recorde da economia alemã e os dados de produção industrial da zona do euro já tinham animado o mercado na abertura dos negócios, mas o otimismo cresceu o sucesso no leilão de títulos de Portugal. O Ibovespa, principal referência do mercado, seguiu o cenário externo e fechou com alta de 1,72%, aos 71.632 pontos, a maior pontuação desde 10 de novembro. Já o dólar recuou 0,59%, para R$1,677.
- Os ânimos já tinham melhorado com as declarações de China e Japão de que estariam dispostos a comprar títulos, e o leilão foi muito bem recebido pelo mercado - apontou o analista da Socopa Corretora Marcelo Varejão.
Para o gerente de renda variável da Corretora Futura, Renato Bandeira de Mello, as atenções agora se voltarão para Itália e Espanha, que também tentarão renegociar suas dívidas:
- O sucesso do leilão melhorou a expectativa para a economia europeia. Amanhã (hoje), haverá leilão de títulos da Espanha e da Itália. Dependendo do resultado, pode alterar o humor do mercado mundial. Mas ainda não dá para falar em mudança de tendência.
Diante das melhores perspectivas a economia mundial, as ações ordinárias (ON, com voto) da MMX foram a maior alta do Ibovespa, de 5,29%. Já a ação preferencial da AmBev (PN, sem voto) teve o pior desempenho do índice, com queda de 2,71%, depois de um relatório do Goldman Sachs rever de compra para neutra sua recomendação para o papel.
Em um sinal de cautela sobre os rumos da crise da dívida na União Europeia (UE), o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, defendeu o reforço do fundo de resgate criado pelo bloco. O apelo foi reforçado pelo comissário de Assuntos Econômicos da UE, Oli Rehn, em artigo publicado no jornal britânico "Financial Times". O fundo, criado em maio, tem um caixa de 440 bilhões (US$570,3 bilhões), mas capacidade efetiva de empréstimo de 250 bihões. Isso seria insuficiente, por exemplo, no caso de um socorro à Espanha.
A chanceler alemã, Angela Merkel, deu um sinal de que a Alemanha estaria disposta a rever os termos do fundo de resgate. Segundo a agência Bloomberg, ela afirmou que fará o necessário para apoiar o euro.
Rehn disse que os ministros de Finanças do bloco devem buscar, em sua reunião na semana que vem, maneiras de reforçar o caixa do fundo de resgate da UE, para acalmar os mercados. Além disso, um relatório interno da Comissão Europeia, ao qual a Reuters teve acesso, sugeria que uma taxa única sobre os bancos poderia arrecadar 50 bilhões para o fundo.
COLABOROU Lucianne Carneiro, com agências internacionais