Título: Qualquer arma deve ser usada, até controle de capital
Autor: Bôas, Bruno Villas ; Carneiro, Lucianne
Fonte: O Globo, 15/01/2011, Economia, p. 21

MÁRCIO GARCIA

O professor do Departamento de Economia da PUC-Rio Márcio Garcia avalia que o sucesso da economia brasileira vai obrigá-la a conviver com um real mais apreciado. Por isso, o país deve promover reformas estruturais para tornar o setor produtivo mais competitivo. Mas, diante do cenário mundial em que diferentes países agem para conter a apreciação de suas moedas, Garcia admite até mesmo o controle de capitais, desde que de forma temporária.

O leilão de swap cambial reverso ajudará a conter a queda do dólar?

MÁRCIO GARCIA: Existem algumas razões para se acreditar que atuando nos dois mercados (futuro e à vista) é possível ser mais eficiente que só no à vista. Mas não se tem muito claro quão maior é o impacto, então não dá para saber (a influência). Estudos que fiz sobre intervenções no câmbio desde 2003 mostram que o efeito é temporário, mas o custo é permanente. É um jeito muito caro de aliviar os males do real apreciado.

Mas qual seria a alternativa?

GARCIA: Se o governo quiser ajudar a indústria, talvez fosse interessante adotar a ideia do Samuel Pessôa, da FGV, de aliviar a folha salarial. Meu temor é aumentar a taxa de importação, que é ruim para a inflação.

O real apreciado é uma preocupação?

GARCIA: Sem dúvida, mas é o preço que pagamos por estarmos dando certo. Agora, está apreciado demais, por China e EUA. De qualquer forma, a economia brasileira tem que aprender a conviver com um real mais apreciado e fazer nosso sistema produtivo mais eficiente. A educação é ruim, o sistema tributário também e a legislação trabalhista não incentiva a empregabilidade. Temos que mudar a política fiscal, reduzir os gastos públicos.

Diversos países estão agindo para conter a apreciação de suas moedas. Como reagir neste cenário?

GARCIA: Neste cenário mundial, qualquer arma que possa ser usada (contra a apreciação da moeda) deve ser usada, até mesmo o controle de capital. E ele já é feito desde 2009, quando o IOF para investimento estrangeiro em renda fixa foi instituído. Por outro lado, não adianta fazer isso sem mexer nas coisas estruturais, que o governo deixou de tocar, e mudar a política fiscal. Além disso, é preciso que essas armas sejam temporárias.