Título: US$1 bi para segurar o dólar
Autor: Bôas, Bruno Villas ; Carneiro, Lucianne
Fonte: O Globo, 15/01/2011, Economia, p. 21
Em leilão do BC, mercado compra todos os contratos. Moeda sobe 0,96%, mas analistas veem fôlego curto
Em mais uma medida para tentar frear a queda do dólar, o Banco Central (BC) vendeu ontem todo os 20 mil contratos do chamado swap cambial reverso - operação que equivale a uma compra futura de dólares - colocados à disposição, no valor total de US$987,8 milhões. Foi o primeiro leilão desse tipo em quase dois anos. Com a atuação, e também devido a um aperto do crédito na China, o dólar avançou 0,96% no mercado brasileiro, a R$1,685. Foi a maior valorização da moeda em um pregão desde 8 de novembro do ano passado. Mas, para analistas, o fôlego da medida é de curto prazo e a tendência é o dólar cair. Na máxima do dia, a moeda chegou a ser negociada a R$1,690, alta de 1,26%. Mas depois recuou e fechou em alta menor.
Para Paulo Vieira da Cunha, ex-diretor BC e hoje diretor da Tandem Global Partners, apenas um "coquetel furioso" de medidas poderia interromper a valorização do real frente ao dólar. Ele lembra que operações de swap cambial foram usadas pelo BC nos últimos 12 anos sem conseguir mudar o rumo da moeda:
- Nenhuma das medidas até agora anunciadas isoladamente vai conter o câmbio. E, se intensificadas, podem colocar em risco a atração de recursos externos de melhor qualidade, necessários para financiar a conta corrente e o investimento em infraestrutura.
O economista afirma que as medidas adotadas pelo BC, porém, revelam uma mudança de filosofia da forma de atuar da autoridade monetária, que nunca reconheceu de forma tão deliberada a intenção de influenciar na formação do câmbio.
BC sinaliza que não fará leilão 2ª feira
Segundo Victor Asdourian, operador de derivativos da Hencorp Commcor, o leilão foi bem sucedido porque criou expectativas no mercado de intervenções cada vez maiores.
- O valor de US$1 bilhão não é suficiente para mudar a posição de quem aposta contra o dólar. Mas o mercado fica incomodado.
Ontem, o BC deu sinais de que poderá usar o mecanismo de swap cambial reverso com parcimônia. Isso porque não informou que faria nova pesquisa de interesse do mercado para outro leilão. Normalmente, o BC sonda o apetite dos agentes econômicos no dia anterior aos leilões, o que indica que, na próxima segunda-feira, não deve fazer nova rodada. Apesar disso, o BC continuou firme na sua intervenção no mercado cambial por meio de compras de dólares à vista. Ontem, fez mais um leilão com esse perfil.
Para Solange Srour, economista-chefe da BNY Mellon ARX, a tendência é de queda do dólar.
- Enquanto o Brasil tiver seus termos de troca (commodities, principalmente) evoluindo, a tendência será de valorização do real - afirma.
O gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, lembra que a queda do dólar reflete a farta liquidez mundial e as ações do governo "são para chacoalhar o mercado", mas não podem inverter a trajetória do dólar. Para o diretor da NGO Corretora, Sidnei Nehme, os leilões de swap cambial reverso são um equívoco, pois não acabam com a especulação dos bancos e, pelo contrário, estimulam a apreciação do real.
Ontem, o BC foi ajudado por um cenário externo favorável à valorização da moeda americana. O governo chinês anunciou nova medida de aperto monetário e o dólar subiu frente a moeda de diferentes países, sobretudo os produtores de commodities. Frente ao rand sul-africano, por exemplo, o dólar subiu 1,26%.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a medida do BC foi uma atuação clássica, para neutralizar o efeito da venda de contratos futuros de dólar pelos bancos, que terão de desfazer posições nos próximos 90 dias para fugir de compulsório imposto pelo BC semana passada.