Título: Planalto recebe carta do Irã sobre Sakineh
Autor: Gois, Chico de; Magalhães-Ruether, Graça
Fonte: O Globo, 18/01/2011, O Mundo, p. 30

Segundo agência, deputada diz a Dilma que execução foi suspensa, mas Judiciário iraniano nega mudança na sentença

BRASÍLIA e *BERLIM. O Palácio do Planalto recebeu no fim da tarde de ontem a carta enviada pela deputada iraniana Zohre Elahian, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Parlamento do Irã, à presidente Dilma Rousseff. A correspondência - na qual segundo a agência iraniana estudantil Isna a parlamentar informa que a pena da condenada Sakineh Ashtiani havia sido comutada para dez anos de prisão - causara alvoroço diante da expectativa internacional sobre o destino da mulher, condenada ao apedrejamento por adultério e pelo suposto envolvimento no assassinato do marido.

De acordo com a assessoria internacional da Presidência da República, a carta da deputada chegou no fim da tarde e será ainda traduzida do inglês para o português e então, entregue à presidente pelo assessor especial Marco Aurélio Garcia. O conteúdo da missiva - entregue à embaixada brasileira em Teerã e que chegou com atraso ao destino final, provocando informações desencontradas - não foi revelado pelo Itamaraty.

Correspondência criticaria a presidente brasileira

A existência de uma carta endereçada à presidente do Brasil foi revelada pela agência iraniana Isna e rapidamente reproduzida por agências internacionais. De acordo com a Isna, a deputada Zohre Elahian avisava a Dilma que Sakineh não seria apedrejada ou mesmo enforcada devido aos apelos dos filhos da condenada.

"Embora a sentença de apedrejamento não tenha sido finalizada ainda, a sentença de enforcamento foi suspensa devido ao perdão (dos filhos dela)", disse a deputada, segundo a Isna.

Na carta, aliás, a parlamentar iraniana também teria criticado a presidente Dilma Rousseff por sua defesa de "prisioneiros políticos e de consciência com antecedentes de crimes de segurança contra o povo iraniano".

Pouco depois da revelação, no entanto, Malek Ajdar Sharifi, uma autoridade judicial da província de Tabriz, onde o caso está sendo julgado, colocou em dúvida as supostas declarações da deputada. Em entrevista à agência oficial Irna, ele assegurou que o veredicto final de Sakineh ainda não foi emitido.

"Não houve nenhuma mudança nem desenvolvimento no processo de Sakineh Mohammadi Ashtiani e a publicação de qualquer notícia a esse respeito é falsa", assegurou Sharifi, acrescentando polêmica a um caso já cheio de controvérsias.

A informação foi endossada, mais tarde, pelo procurador-geral do Estado e porta-voz do Judiciário do Irã, Gholam Hossein Mohseni Ejei. Desmentindo a imprensa internacional - e a de seu próprio país - ele também negou à Irna que Sakineh tenha escapado da pena de morte:

"O que se diz sobre uma possível redução da pena é também errôneo porque (o caso) ainda está sendo revisado".

Em Berlim, a líder da ONG Comitê Internacional contra o Apedrejamento, Mina Ahadi, lembrou que a pena de dez anos foi a primeira à qual Sakineh foi condenada, pouco depois do assassinato do seu marido, em 2005. Mas, desde então, a Justiça vem mudando suas decisões. Segundo Ahadi, uma confirmação eventual de que a pena de morte foi anulada, refletiria a disputa de poder dentro do governo islâmico do Irã.

- A decisão final sobre o caso vai ser política. A justiça iraniana faz o que quer, mas não deixa de ter uma certa preocupação em mostrar uma boa imagem, ao menos para países amigos - afirmou ela ao GLOBO.

Ontem, o advogado de Sakineh, Houtan Kian, preso desde outubro passado, teve uma nova audiência com a Justiça, mas não se sabe sobre uma possível libertação. Já Sajjad Ghaderzadeh, de 21 anos, um dos filhos de Sakineh, detido junto com Kian, foi libertado, mas tem evitado falar sobre o caso com parentes, amigos ou mesmo com ativistas da ONG. No último domingo, ele foi visto, sorridente, em Tabriz, mas parentes evitaram uma aproximação.

- Saijad não pode fazer comentários sobre o caso porque se o fizer corre o risco de ser preso de novo - resignou-se Mina Ahadi.