Título: Entrevista Evgeny Morozov
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 17/01/2011, Economia, p. 21
O senhor não acredita no potencial democratizante da internet?
EVGENY MOROZOV: Não é isso. Há definitivamente potencial na rede para apoiar mudanças, sobretudo pela facilitação da comunicação entre indivíduos. Meu problema é com toda a ideologia por trás disso. A internet não faz mágica. Não podemos simplesmente assumir que acesso à tecnologia vai simplesmente transformar sociedades, pois sociedades diferem entre si. Algumas, por exemplo, são mais guiadas por princípios nacionalistas e religiosos, que simplesmente podem ser amplificados pela rede.
Há críticas especiais à postura do governo americano em seu livro. Por quê?
MOROZOV: Refiro-me especificamente a um discurso da secretária de Estado, Hillary Clinton, sob o tema `¿Liberdade da internet¿¿, em que se falou em como a tecnologia digital permitiria a luta contra a opressão, entre outras coisas. É errado e pode ser encaixado na mesma categoria da ideia de que o acesso a programas de TV ocidentais iriam fomentar a queda do comunismo ¿ a Alemanha Oriental durante muito tempo desfrutou do privilégio sem que nada mudasse.
Nem todo mundo quer democracia, é o seu argumento...
MOROZOV: Sim, e a Rússia é um grande exemplo. Continua sendo um país autoritário mesmo depois da fragmentação da URSS. É um caso de que a internet muitas vezes pode servir apenas como um instrumento de entretenimento, não necessariamente de politização, ou não teríamos tanta gente assistindo a vídeos bizarros no YouTube, apostando em cassinos ou buscando pornografia. A URSS quebrou porque a vida era chata... Eu estava lá! As pessoas queriam calças jeans e gadgets muito mais do que qualquer outra coisa (risos).
Mas o que dizer de casos como o Twitter no Irã, quando o microblog ajudou nos protestos contra a fraude na eleição presidencial?
MOROZOV: É parte da ingenuidade. O Twitter tinha apenas 20 mil usuários na época do pleito. Imaginar que isso poderia reverter o status político-religioso é tão lúdico quanto pensar que o Iraque automaticamente seria democrático após a derrubada de Saddam Hussein. Não é apenas por receber mais informações que as pessoas vão querer derrubar governos.
O senhor também argumenta que a rede não é invulnerável à censura. O quão possível é este controle?
MOROZOV: Na China, por exemplo, o governo consegue controlar cada vez mais a internet e cercear conteúdo. Regimes autoritários estão ficando bons nisso. O que não quer dizer que o jogo não tenha mudado para os ativistas. A internet facilita a propagação de ideias, por aumentar o alcance ao menos tempo em que diminui os custos de divulgação e mobilização. O que me incomoda é o volume de expectativas. Mudanças não vão acontecer da noite para o dia.
O que está faltando?
MOROZOV: A internet ainda precisa motivar mais a esfera pública, fazer com que mais pessoas se sintam motivadas a participar do debate político. Ajudar a formar um novo tipo de cidadão.
Como o senhor vê o efeito Wikileaks, site que tem vazado documentos importantes e incomodado o governo de muitos países?
MOROZOV: Interessante sob vários aspectos. Em termos tecnológicos, há a vantagem tecnológica de codificação das informações para impedir sua interceptação. Mas o que me chama mais a atenção é o fato de o site ainda precisar de métodos tradicionais de divulgação: o Wikileaks ainda depende da projeção dada pela mídia. Julian Assange não seria tão famoso sem os jornais, que, na verdade, fazem parte do trabalho do site. É tão irônico como ver gurus da internet falando sobre o poder de blogs e redes sociais usando livros...
Mas os hackers não são um exemplo do que se pode chamar de potencial subversivo da rede?
MOROZOV: Hackers podem ser bastante perigosos, mas em termos de organização ainda me parecem muito isolados para serem considerados uma força significativa de desobediência civil.