Título: Jasmin sem garantias de democracia
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Fonte: O Globo, 19/01/2011, O Mundo, p. 31
Violentas manifestações de rua seguidas pela queda de um ditador são um caminho emocionante para levar democracia a uma sociedade autoritária ¿ mas não o melhor caminho. Quando olhar para a Revolução do Jasmin, na Tunísia, lembre-se de que protestos populares podem trazer, inesperadamente, extremistas ao poder, como no Irã, em 1979. Podem criar expectativas irreais e recuar, como na Revolução Laranja, na Ucrânia, em 2004. E podem, ainda, acabar mal, com violência repressiva, como os protestos de 1989 na Praça da Paz Celestial.
Em contraste, as transições mais bem-sucedidas para a democracia ocorrem sem dramas. Considere a Espanha após a morte de Franco, o Chile após a saída de Pinochet, a Polônia, que negociou sua saída do comunismo. Foram transições arrastadas, que criaram poucas fotografias espetaculares e levaram, finalmente, a sistemas políticos estáveis.
Todos, porém, foram possíveis porque líderes autoritários reconheceram que o jogo tinha acabado ¿ ou, como Franco, tiveram o bom senso de morrer. O presidente da Tunísia, Zine el-Abidine Ben Ali, não. Criou falsos partidos de oposição e um Parlamento de fachada, construiu um regime draconiano que controla a internet, e reprimiu a dissidência ocasional para manter todo mundo apavorado.
Ainda assim, a explosão de raiva na Tunísia não só era previsível, mas estava prevista. Alguns achavam que os jovens se transformariam numa massa de emigrantes, outros temiam que enveredassem pelo islamismo radical, e muitos temiam que o caos no Iraque os tivesse posto à margem de uma ideia de democracia. Até agora não se trata de uma revolução islâmica ¿ tampouco democrática. O que vemos é uma revolução demográfica: o levante de jovens frustrados contra seus líderes corruptos.
Mas se era tão óbvio, por que essa explosão não foi prevista e canalizada para eleições? Ben Ali e sua família estavam muito confortáveis e ricos. Ao contrário de ibéricos ou poloneses, não dividiam um continente com outras democracias. A guerra contra o terrorismo lhe outorgou outra justificativa para o despotismo: como aliado da luta contra o Islã radical, ele confortavelmente evitou pressões americanas.
Os EUA, no entanto, não interessam muito na Tunísia, onde a ex-potência colonial França indultou e apoiou Ben Ali por décadas. Enquanto no século XVIII a França desenvolveu a filosofia e a democracia modernas, analistas franceses contemporâneos desenvolveram algo de filosofia antidemocracia. Rejeitaram os EUA e sua crença ingênua na ¿promoção da democracia¿, destacando que todos os países têm ¿direito à sua própria História¿, mais importante que seu ¿direito à democracia¿, segundo um colunista do ¿Le Figaro¿.
Nessa linha, Ben Ali era o ditador ideal: defendia os direitos das mulheres, impedia a ascensão de radicais islâmicos ao poder, e isso bastava. O ex-presidente francês Jacques Chirac uma vez disse que ¿os direitos mais importantes são os de ter alimento, saúde, educação e moradia¿. Os franceses foram surpreendidos. A elite tunisiana foi surpreendida. Se não tivessem sido surpreendidos, poderíamos estar vendo uma transferência pacífica e ordenada de poder em Túnis, em vez dos protestos de rua.
ANNE APPLEBAUM é colunista do ¿Washington Post¿