Título: Renúncias ameaçam novo governo da Tunísia
Autor:
Fonte: O Globo, 19/01/2011, O Mundo, p. 31

Oposição critica remanescentes da ditadura de Ben Ali e proibição a partido islâmico. Líder progressista volta do exílio

TÚNIS. Num sinal de que a queda do ditador Zine el-Abidine Ben Ali está longe de levar uma democracia estável à Tunísia, quatro ministros do recém-formado governo interino do país renunciaram ontem em protesto contra a presença de membros do partido Assembleia Constitucional Democrática (RCD), de Ben Ali, no Gabinete interino de 40 pastas. O descontentamento popular com o que os tunisianos chamam de ¿um governo excludente¿ provocou novas manifestações no centro da capital, Túnis, onde cerca de 300 pessoas enfrentaram a polícia, fazendo o primeiro-ministro, Mohammed Ghanoucchi, no cargo desde 1999, pedir calma.

¿ Precisamos dos ministros nesta fase de transição. Precisamos evitar uma caça às bruxas e incentivar a reconciliação nacional. Muitos ministros do governo anterior fizeram o possível para lutar pelo interesse geral ¿ disse o premier à TV France24.

Ghannouchi e o presidente interino, Fouad Mebazaa, decidiram deixar o partido governista numa tentativa de ganhar a confiança da população. Mas, a chegada do líder oposicionista Moncef Marzouki, um médico e ativista de direitos humanos de 65 anos que vivia no exílio e já desponta como candidato à Presidência, acirrou a tensão.

¿ A Tunísia merecia muito mais! ¿ alfinetou, cercado de simpatizantes, no aeroporto.

Apesar da promessa de mudanças, pastas-chave como Interior, Defesa, Fazenda e Relações Exteriores ficaram nas mãos do RCD, levando quatro dos ministros da oposição a desistirem do governo. Os demissionários foram o vice-ministro dos Transportes, Anwar Ben Gueddour; do Trabalho, Houssine Dimassi; e Abdeljelil Bedoui, ministro sem pasta ¿ ligados à principal central sindical, a UGTT.

Mais tarde, foi a vez da renúncia do ministro da Saúde, Mustafa Ben Jaafar, do oposicionista FDLT, deflagrando rumores de que Revolução do Jasmin não estava terminada e que inclusive o primeiro-ministro poderia ser forçado a sair. Em consultas partidárias, a ministra da Cultura, Moufida Tlatli, também cogitava abandonar o governo.

Filhas de Ben Ali buscaram refúgio na EuroDisney

Em outra tentativa de aplacar os ânimos, o ministro do Interior, Ahmad Friaa, foi à TV estatal fazer um balanço do número de mortos ¿ 78 ¿ e alertar para os prejuízos na economia, já estimados em US$2,2 bilhões.

Às queixas pela presença em massa de membros da ditadura no novo governo somou-se o descontentamento pela proibição de retorno ao país de Rachid Ghanuchi, líder do partido islâmico Nahda, posto na ilegalidade pelo regime de Ben Ali. Exilado em Londres, Ghanuchi foi condenado à prisão perpétua e só poderá voltar se houver anistia.

Enquanto o ex-ditador Zine el-Abidine Ben Ali buscou refúgio na Arábia Saudita, suas filhas Nasrine e Cyrine Ben Ali teriam tentado se instalar num hotel da EuroDisney, perto de Paris, mas teriam sido informadas pelo governo francês que não era bem-vindas, segundo o diário britânico ¿Independent¿.

Ontem, a inquietação política continuou se espalhando. No Cairo, dois egípcios se imolaram em protesto contra a política econômica.