Título: Reassentamento de risco
Autor: Magalhães, Luiz Ernesto
Fonte: O Globo, 22/01/2011, Rio, p. 14
Fazenda desapropriada ficou isolada
O terreno do bairro Fazenda da Laje escolhido pela prefeitura de Nova Friburgo para reassentar 3 mil famílias pelo programa Minha Casa Minha Vida fica numa região sem asfalto, afastada do centro e que, após as chuvas, ficou praticamente isolada do restante do município. Como a chuva derrubou barreiras e danificou uma ponte de mais de 100 anos, durante dois dias só foi possível chegar à fazenda desapropriada a pé, em meio à lama.
A própria fazenda não é inteiramente plana: a encosta existente exibe sinais de deslizamentos recentes. Além disso, para chegar até o terreno com 400 mil metros quadrados, a equipe do GLOBO percorreu quase sete quilômetros de terra batida e contou pelo menos 16 deslizamentos de terra. Em alguns trechos, a pista afundou.
O percurso foi feito a partir do centro de Conselheiro Paulino, uma das regiões mais castigadas da cidade. No caminho, a equipe passou próximo ou por dentro de bairros cujas encostas ficam em áreas de risco, como Floresta e Alto Floresta. A principal rota alternativa é uma ponte que liga Friburgo a Duas Barras, danificada pelas chuvas. A 100 metros para a entrada do terreno está a casa da comerciante Laura Pedrosa do Bonfim de 43 anos, erguida logo abaixo de um barranco. Ela admite que o imóvel pode estar em um ponto de risco:
¿ Eu durmo na parte de baixo da casa. Se ouvir algum barulho, posso sair correndo.
A presidente da Associação de Moradores do Alto Floresta, Rosa Amélia Lemos Silva, que também coordena a ajuda aos desabrigados das chuvas da comunidade, criticou a escolha do local:
¿ A decisão pode ser do governo. Mas acredito que muita gente não queira sair daqui para ir para Fazenda da Laje. A área pode não ser de risco mas, se tiver outra chuva forte e as barreiras caírem, todos ficarão isolados.
O secretário municipal de Obras de Nova Friburgo, Hélio Gonçalves, defendeu a escolha. Segundo ele, uma nova estrada será construída para permitir o acesso dos futuros moradores sem passar pelas áreas de risco. Ele, no entanto, não soube estimar o custo da nova via:
¿ Nós estamos negociando com o governo federal e o governo do estado a liberação de recursos para o projeto.
O secretário acrescentou que não pretende usar toda a área do terreno. Por essa razão, os trechos em aclive não seriam mexidos.