Título: Governo vê risco de déficit comercial este ano
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 23/01/2011, Economia, p. 31
Estudos apontam para saldo abaixo de US$1 bi ou resultado negativo. Dilma quer ações para ampliar competitividade
BRASÍLIA. Estudos reservados do governo, aos quais O GLOBO teve acesso, revelam que, mantidos a taxa de câmbio e os atuais preços das commodities agrícolas e minerais, a balança comercial poderá registrar superávit inferior a US$1 bilhão ou até mesmo déficit em 2011. O cenário sombrio e mais pessimista do que preveem o setor privado e parte da área econômica - saldo positivo da ordem de US$10 bilhões - levou a presidente Dilma Rousseff a dar nova roupagem à Câmara de Comércio Exterior (Camex), que ficará encarregada de elaborar diretrizes mais ousadas para que as exportações sejam retomadas e as indústrias nacionais conquistem competitividade em relação a outros mercados, como a China.
Dilma determinou à equipe todos os esforços para recuperar as vendas externas, tornar mais ágil o sistema de defesa comercial, buscar acordos comerciais e diversificar a pauta exportadora. Recuperar superávits comerciais é tido como o principal caminho para cobrir o rombo em transações correntes (serviços, comércio e transferências unilaterais no exterior), estimado em mais de US$60 bilhões para 2011, após fechar 2010 em cerca de US$49 bilhões.
Por isso, os ministros que integram a Camex (Desenvolvimento, Fazenda, Itamaraty, Agricultura, entre outros) terão de elaborar diretrizes levando em conta toda a conjuntura atual, como o câmbio, área hoje de competência exclusiva do Banco Central (BC).
Nos casos de defesa da concorrência, Dilma determinou mais celeridade nas decisões de sobretaxar importações de produtos anticoncorrenciais. A ideia é reduzir de um ano para até 60 dias o prazo para a aplicação de tarifas antidumping no ingresso irregular de mercadorias.
Novo secretário da Camex é especialista em câmbio
A presidente, que faz questão de participar da primeira reunião de ministros da Camex, prevista para meados do próximo mês, escolheu a dedo o novo secretário-executivo da Câmara: o especialista em câmbio e reservas internacionais Emílio Garófalo, que tem no currículo o fato de ter sido, entre outras coisas, diretor da área internacional do BC e assessor da equipe do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao longo de 2010. Isso lhe garantiu um bom trânsito na equipe econômica.
Garófalo deixará de ser um mero relator do que acontece nas reuniões para ser um dos formuladores da política externa, acredita Roberto Giannetti da Fonseca, ex-secretário-executivo da Camex e atual diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Em sua opinião, a Camex deveria ser reforçada, tanto em recursos humanos como do ponto de vista institucional.
- Um especialista em câmbio na Camex é algo extremamente positivo. Garófalo conhece profundamente o mercado, tem visão empresarial e governamental - afirmou Giannetti da Fonseca.
A indústria sugeriu a transferência da Câmara para a Presidência da República, com o argumento de que isso daria maior respaldo às decisões. Essa hipótese, no entanto, está descartada. A Camex continuará sob o comando do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel.
No ano passado, as exportações superaram as importações em US$25,3 bilhões, graças às commodities agrícolas e minerais que, nos últimos meses, vêm atingindo cotações elevadas e contribuindo para o aumento da inflação. Uma das saídas seria reduzir a dependência que o Brasil tem desses produtos e aumentar o volume de itens industrializados.
- O governo está claramente contendo a demanda interna, e isso deve atingir os importados, ainda que a taxa de câmbio seja estimulante. Se os preços das commodities caírem 10%, a balança se torna deficitária - disse o vice-presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), José Augusto de Castro, que ainda acredita num superávit em torno de US$26 bilhões, caso as cotações das commodities continuem em alta até o fim do ano.
Meta do governo é exportar US$228 bi em 2011
Albene Ferreira, professora da Universidade de Brasília (UnB), lembra que é preciso levar em conta a conjuntura doméstica e o cenário internacional. Por exemplo, como se comportarão as economias dos Estados Unidos e da China, grandes compradores de produtos brasileiros.
- Agora é início de governo, e o ano só está começando. Falar sobre isso agora é especular - disse Albene.
A meta do governo é que as exportações atinjam US$228 bilhões em 2011. Com isso, haveria um crescimento de 13% em relação ao ano anterior. No entanto, o grande dilema se encontra nas importações, facilitadas pelo real valorizado frente ao dólar.
Na última sexta-feira, o dólar fechou em R$1,673, com pequena alta de 0,05%. O aumento se deveu a uma rápida atuação do BC para impedir a queda da moeda no Brasil, por meio de uma intervenção no mercado futuro de câmbio. Na segunda-feira, o BC fará novo leilão desse tipo (swap cambial reverso) e, com isso, as intervenções em pouco mais de uma semana deverão somar US$3 bilhões.