Título: Banda fraca na área
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 25/01/2011, Economia, p. 19

Segundo estudo, 75% das empresas do Rio criticam conexão de internet: gargalo para Copa e Jogos

Não são apenas os consumidores residenciais que reclamam dos serviços prestados pelas operadoras de telefonia. As grandes indústrias também não poupam críticas quando o assunto é qualidade na conexão. Estudo feito pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) revela que, para 75% das companhias fluminenses, a relação entre a velocidade da banda que as teles oferecem e a utilizada no dia a dia é tida como fraca e muito fraca.

O estudo vai além. Na cidade que vai receber jogos da Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, o levantamento aponta que hoje as companhias de telefonia não suprem as necessidades de maior parte das empresas. Para 54,2% delas, a velocidade de banda oferecida pelas operadoras é fraca; e, para 16,7%, o que há disponível é muito fraco. A Firjan ouviu as 40 maiores indústrias do Rio em dezembro.

Ana Hofmann, assessora da diretoria de Inovação da Firjan, diz que o estudo foi feito depois de inúmeras queixas feitas por empresários à Firjan. Por isso, lembra Ana, o setor de telecomunicações foi incluído numa espécie de pauta de defesa dos interesses da indústria. Participam do grupo companhias como Petrobras, Coca-Cola, Metrô Rio e Queiroz Galvão. Entre os clientes residenciais, as reclamações são semelhantes, pois as teles lideram há anos a lista das mais acionadas nos órgãos de defesa do consumidor.

- Vamos estabelecer uma agenda de interesses para a área de telecom, assim como há para as questões relacionadas a meio ambiente, econômica e tributária. Esses grupos veem o setor como um gargalo até pelos eventos que vão acontecer no estado. Não adianta ter investimento se não tiver como operá-los - explica Ana, lembrando que a Firjan também precisa de uma rede eficiente para se conectar com todos os municípios do estado.

Para indústria, falta cobertura nacional

Mais da metade (54,2%) das indústrias do Rio afirmam que a qualidade das operadoras de banda larga quanto à presença nacional de seus serviços é fraca ou muito fraca. Por isso, dizem essas empresas, é preciso mais investimentos. Estudo do Banco Mundial aponta que a cada 10% de crescimento na capilaridade de banda larga, o PIB cresce 1,2%. Além disso, a cada ponto percentual a mais de internet, a geração de emprego aumenta de 0,2 a 0,3 ponto percentual por ano.

- Mas o importante é que todos devem se unir. Empresas, operadoras e governo. As teles também sofrem com a alta carga tributária. O setor necessita de muitos equipamentos vindos do exterior. E o custo de importação chega a 78%. Com tantas taxas, fica inviável economicamente adquirir certos equipamentos. Muito se fala do Plano Nacional de Banda Larga, mas isso vai beneficiar apenas o usuário final. Temos todos de unir forças. Se o Rio quer crescer, precisa olhar para essa questão - completa Ana.

Além disso, o Rio conta com um dos maiores ICMS do país, de 43% sobre o serviço de telecomunicações. Eduardo Levy, diretor-executivo do SindiTelebrasil, ressalta que o setor sofre com a alta carga tributária e as dificuldades de se construir uma rede, como as exigências ambientais, por exemplo.

- Mas é sempre preciso trabalhar mais. Se o governo entender que a banda larga é necessária para o país, é preciso reduzir os impostos. O setor investiu mais de R$200 bilhões nos últimos dez anos. Mas todos têm problemas - afirma Levy.

Etienne Hubert Vreuls, presidente do Grupo de CIOs (diretor de tecnologia, na sigla em inglês), vê o momento com bons olhos e diz que é preciso um trabalho conjunto para mudar o cenário.

Localizada no distrito industrial de Paciência, a Magna Estaleiros, especializada em barcos de esporte e lazer, sofre com os problemas do setor de telecomunicações.

- Em nosso caso, que efetuamos vendas em todo o Brasil, ficamos diretamente dependente do bom funcionamento da rede. Todas as compras, movimentos bancários, emissão de nota fiscal, entre outros serviços, dependem de um bom sistema de telecomunicações. Até bem pouco tempo nem internet banda larga tinha na região - afirma Sérgio Rangel, vice-presidente da empresa.

Teles reclamam da carga tributária

Do outro lado, a TIM diz que é preciso reduzir a carga tributária, com ações que envolvam desde a aquisição dos equipamentos até a prestação ao cliente, além de reduzir os preços cobrados nos leilões de radiofrequências, essencial para ampliar a cobertura.

Além disso, a companhia ressalta que é necessário disponibilizar o compartilhamento da infraestrutura de transmissão, hoje na mãos das concessionárias, a preço de custo aos demais competidores. Essa é a forma mais eficaz de se reduzir os valores cobrados atualmente e aumentar a qualidade do serviço prestado pelas companhias, completa a TIM.

Para Daniel Cardoso, diretor de Planejamento Estratégico da Vivo, o acesso à internet é cada vez mais importante. O executivo cita os investimentos em torno da cobertura da terceira geração (3G), cuja meta é atingir 2.832 municípios até o fim deste ano. A empresa, que investiu R$2,5 bilhões em infraestrutura e pagou R$1 bilhão em novas licenças para ampliar a capacidade em 2010, também reclama da alta carga tributária no país:

- O volume de tributos é muito alto, ainda mais no setor de telecom. É claro que isso é um limitador de investimento. Hoje, 44% da receita líquida são destinados ao pagamento dos tributos. Com isso, é mais caro expandir. E quando se fala em empresas, há uma demanda por itens específicos.

Assim como a Vivo, a Oi também está atenta aos investimentos para ampliar a sua capilaridade, uma das demandas das indústrias. A operadora informou que ampliou a cobertura nos últimos três anos, chegando a três mil municípios. Cita ainda o caso de Manaus, onde foram implantadas fibras óticas que permitiram uma redução de 20% nos preços. A Oi pretende entrar em contato com as indústrias do Rio para avaliar as demandas e apresentar propostas que correspondam às suas necessidades. Claro e Embratel não quiseram falar sobre o assunto.