Título: Presidente francês dá recado ao Brasil sobre futura queda nas commodities
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 28/01/2011, Economia, p. 24

FÓRUM GLOBAL: Explosão em hotel assusta participantes do encontro anual

Nicolas Sarkozy defende regulação de preços para evitar crise de alimentos

DAVOS, Suíça, BRASÍLIA e RIO. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, que este ano preside o G-20 - grupo das 20 maiores economias do planeta - defendeu ontem em Davos, no segundo dia do Fórum Econômico Mundial, que o mundo regule o preço das commodities para evitar uma nova crise de alimentos, como a que ocorreu em 2008. E fez um alerta, citando especificamente o Brasil, um dos líderes mundiais de exportação de commodities:

- Digo a nossos amigos produtores de matérias-primas agrícolas, e penso na Índia e no Brasil: não se trata de impedi-los de lucrar com a alta de preços - disse Sarkozy. - Digo apenas, cuidado: a um período de aumento exponencial de preço, se segue geralmente um período de baixa exponencial de preço.

Sarkozy anunciou esta semana que as commodities serão uma de suas prioridades na presidência do G-20. Preços de produtos básicos, como grãos e açúcar, atingiram cotações recordes em dezembro do ano passado. Ele insistiu que todo mercado precisa de regras.

- Não é do interesse de ninguém ver motins causados pela fome em vários países, porque as pessoas não podem garantir a alimentação para si próprias ou suas famílias - disse Sarkozy. - E não é nem do interesse daqueles que estão produzindo commodities, sejam combustíveis fósseis ou alimentos.

Soros vê risco de desintegração da UE

Além dos alertas do presidente francês, o segundo dia do Fórum Econômico Mundial foi marcado pelo susto causado por uma pequena explosão num hotel próximo ao centro de convenções. A explosão quebrou algumas vidraças, mas ninguém ficou ferido. Mais tarde, um grupo chamado Revolutionary Perspective divulgou nota em um site afirmando ter colocado a bomba porque havia ministros suíços e representantes do UBS no local.

Thomas Hobi, porta-voz da polícia suíça, disse que houve "uma pequena explosão" no subsolo de uma garagem do Post Hotel Morosani, por volta das 9h da manhã (horário local). O atentado está sendo investigado pela polícia federal suíça.

Os executivos presentes no Fórum expressaram ceticismo sobre as chances de a crise da dívida da zona do euro ser resolvida sem afetar a Espanha e sem causar prejuízo a investidores. O megainvestidor George Soros disse que a União Europeia corre o risco de se desintegrar se não permitir que a Irlanda reestruture a dívida de seus bancos, e a Grécia, do governo.

Sarkozy, por sua vez, fez uma defesa veemente do euro, dizendo que a moeda representa a própria identidade da Europa, e que França e Alemanha não vão deixar que a moeda seja destruída.

- Aos que querem apostar contra o euro, cuidado com seu dinheiro - alertou.

Tombini faz alerta: não apostem no real valorizado

Na mesma linha de Sarkozy, o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, leva para Davos um recado aos investidores estrangeiros: não apostem no real valorizado. Esta é a mensagem que o novo xerife da autoridade monetária vem enviando ao mercado desde que recebeu o cargo das mãos de Henrique Meirelles. Não há no governo a intenção de mexer na cotação do dólar, mas não se descarta que, em um repique da crise - que ainda não foi superada pelos países desenvolvidos, sobretudo a Europa -, o preço da moeda americana no Brasil volte a subir.

A mensagem está direcionada, sobretudo, àqueles que pretendem especular com a moeda brasileira em um momento em que a expressão da moda é "guerra cambial". Na primeira entrevista coletiva à imprensa, Tombini já havia alertado para que empresas e pessoas ficassem atentas a seus empréstimos em moeda estrangeira.

- As crises surgem de forma lenta e, por vezes, silenciosas. Muitas vezes, só são percebidas quando já se encontram em estágios avançados - disse Tombini em seu discurso de posse.

Por trás das palavras do presidente do BC o que se lê é que o país está preparado para oscilações do câmbio, como ocorreu na crise de 2008, quando o nível de reservas estava em US$206 bilhões, mais do que suficiente para amainar os efeitos da turbulência que levou o dólar de R$1,56 em 1º de agosto para R$2,50 em 5 de dezembro. Para o ex-diretor do BC Carlos Eduardo de Freitas, o recado é que o país não vai socorrer quem apostar contra o Brasil:

- É uma lembrança de que a moeda é flutuante e pode ir de um lado para outro e que o governo não tem como socorrer quem apostar contra o país.

Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, não há a expectativa de turbulências graves, mas o BC está preparado para enfrentá-las e o mercado deve estar também.

Ontem, o dólar avançou 0,47%, para R$1,679, após o BC realizar o quarto leilão de swap cambial reverso (que equivale a uma compra de dólar no mercado futuro) no ano, o primeiro anunciado no mesmo dia de sua realização. Além disso, a autoridade monetária fez dois leilões no mercado à vista, comprando cerca de US$750 milhões. Dos 20 mil contratos ofertados, só 10,2 mil foram vendidos pelo BC no swap cambial reverso, no valor de US$503,5 milhões. Nos três leilões anteriores, o mercado comprou toda a oferta, chegando a cerca de US$3 bilhões.

- O BC incluiu o fator imprevisibilidade na operação do leilão de swap cambial, foi uma surpresa para o mercado - disse o economista da BCG Liquidez Alfredo Barbutti.

COLABORARAM Vivian Oswald, Martha Beck e Lucianne Carneiro, com agências internacionais