Título: Em busca de uma maneira honrada para sair de cena
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 02/02/2011, O Mundo, p. 28

Recusa de presidente a renunciar imediatamente lança dúvidas sobre a viabilidade de reformas até a convocação de eleições

Fernando Duarte e Renata Malkes

CAIRO e RIO. Uma manobra de realpolitik. A confirmação de que, do alto de seus 82 anos, o presidente Hosni Mubarak não concorrerá às próximas eleições presidenciais, previstas para setembro, não surpreendeu. Atendeu às suas necessidades de achar um caminho digno para sair de cena e ainda causou irritação em muitos egípcios ¿ cujos apelos nas ruas são claros: exigem a renúncia imediata do ditador. O discurso de Mubarak somente lançou ontem incertezas ainda maiores sobre o período de transição.

Analistas destacam que, há vários meses, já se sabia que o ditador não seria o candidato do Partido Nacional Democrata (PND) às eleições. Todos os indícios apontavam para o fato de Mubarak estar costurando nos bastidores o apoio necessário à indicação de seu filho, Gamal, para sucedê-lo. Os protestos populares levaram os herdeiros de Mubarak a buscar abrigo em Londres, deixando no ar a dúvida sobre o que restou do PND após a avalanche de protestos que tomaram o país ¿ e que papel, se algum, o partido terá no futuro do Egito.

As promessas de reformas constitucionais que viabilizem a participação de outras facções políticas no pleito também estão em xeque, já que o Parlamento é controlado pelo PND, que detém nada menos que 420 das 518 cadeiras da Casa. Resta saber se o líder octogenário ¿ que, num ameaçador recado velado, garantiu que ¿vai morrer na sua pátria¿ e que ¿mandará a polícia identificar os responsáveis pelos distúrbios¿ ¿ terá, de fato, disposição para implementar reformas através de decretos presidenciais. Ou seja, revertendo, ele mesmo, suas próprias legislações draconianas.

Mais cedo, na praça Tahrir, manifestantes trocavam impressões sobre a insistência do presidente em ficar no poder. Além de respostas mais imediatas sobre a índole do chefe de Estado, algum egípcio mais velho invariavelmente mencionava a palavra ¿kibr¿, conceito corânico que, em árabe, significa orgulho ¿ sentimento que certamente emana de Mubarak, não apenas pelo passado militar, mas pelo papel de herói nacional que mesmo alguns de seus opositores ressaltam.

Como chefe da Força Aérea, Mubarak caiu nas graças populares por conta do sucesso inicial da ofensiva contra Israel na Península do Sinai, durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973. O episódio fortaleceu seu currículo o bastante para que saltasse de um cargo de confiança no Ministério da Defesa para a vice-presidência do país, em 1975. Seis anos depois, porém, o assassinato do então chefe de Estado, Anwar Sadat, alçou Mubarak ao cargo ao qual ainda tenta se agarrar.

¿ As pessoas se esquecem que Mubarak tem a cabeça de um comandante. Não vai aceitar a derrota e simplesmente renunciar ou fugir para a Arábia Saudita, mesmo num momento em que seu lugar na história ameaça ficar manchado. Isso é parte do problema que vivemos ¿ justifica o professor aposentado Ahmed Zaher, de 65 anos.

Os primeiros sinais de que o presidente buscava sair de cena de maneira honrada vieram justamente da nomeação do então-chefe da Inteligência, Omar Suleiman, para a vice-presidência ¿ cargo preenchido pela primeira vez em três décadas.

¿ Basicamente, a escolha de Suleiman representou a mensagem de que Mubarak havia abortado o plano de transformar seu filho, Gamal, em sucessor, ao mesmo tempo em que apresentou um nome confiável, das Forças Armadas. Mas pode ter sido um pouco tarde demais para garantir uma saída mais discreta ¿ avalia Amr Hamzawy, analista do instituto Carnegie Centre.