Título: Confrontos dão sobrevida política ao regime
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 03/02/2011, O Mundo, p. 30
Três facções opositoras cedem à proposta de dialogar com Mubarak, e analistas denunciam falta de liderança
PEDRAS SÃO lançadas por grupos pró e contra Mubarak no centro do Cairo: estratégia do presidente seria levar caos às ruas para esgotar o povo
CAIRO e RIO. Se o anúncio da dissolução do Parlamento e de emendas constitucionais visando à participação livre nas eleições presidenciais do Egito sugerem que a crescente pressão americana sobre o presidente Hosni Mubarak surtiu efeito, os enfrentamentos de ontem no centro do Cairo mostram que, na prática, o ditador conseguiu ganhar um pouco mais de sobrevida política em sua batalha para permanecer no poder. A violência deflagrada pela incitação da Mukhabarat, a temida polícia secreta, levou alguns partidos de oposição a aceitarem a oferta de negociação proposta pelo governo. E o silêncio público ¿ rompido tardiamente ¿ de figuras-chaves da oposição como o ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed ElBaradei, e o bloco islâmico Irmandade Muçulmana encorajaram o líder octogenário, deixando exposto um dos maiores problemas atuais do país: a falta de uma liderança clara, catalisadora, nas manifestações.
Para 95%, Islã deve participar mais da política
Segundo o diário ¿al-Masry al-Yom¿, alegando a deterioração da segurança nas ruas, os blocos Wafd, Tagammu e o tradicional Partido Nasserista emitiram um comunicado conjunto defendendo a proposta de diálogo feita pelo vice-presidente Omar Suleiman. A Irmandade Muçulmana, no entanto, se manteve firme à recusa oficial ¿ assim como Mohamed ElBaradei, que, à tarde, emitiu um novo comunicado exigindo a renúncia do ditador.
¿ A estratégia de Mubarak foi levar caos às ruas para tentar esgotar a população, forçando-a a aceitar um compromisso. O que ele quer é dar as cartas para que, publicamente, Suleiman leve adiante a transição. E manipulando os protestos, ele está em vantagem, porque deixa em evidência a falta de liderança dessa revolta popular ¿ afirma o professor de Ciência Política Mustapha Kamel al-Sayyid, da Universidade do Cairo.
Ontem, diante do anúncio da dissolução do Parlamento, o porta-voz da Casa, Fathi Sorour, prometeu emendas, em dois meses e meio, para reverter os artigos 76 e 77 da Constituição ¿ que permitem ao presidente concorrer ao cargo indeterminadamente e fazem exigências absurdas para permitir a candidatura à Presidência.
Mas, após a violência na Praça Tahrir, a derrocada de Mubarak poderá ser provocada pela indignação pública no exterior ¿ e a percepção de que as gotas de sangue estão respingando em Washington e Londres.
¿ Não há a menor dúvida de que a violenta repressão será vista pelo público nos EUA e na Europa como um escândalo. Num momento em que o presidente Barack Obama e o premier britânico David Cameron estão com problemas de popularidade em seus países, uma atitude séria contra Mubarak terá que ser tomada. Isso inclui o empurrão definitivo nesse regime ¿ avalia o analista Chris Davidson, da Universidade de Durham, no Reino Unido.
Diante do futuro incerto, uma pesquisa do Instituto Pew em dezembro do ano passado reforçou nos EUA os temores de que o Egito passe por uma islamização pós-Mubarak. Entre mil pessoas ouvidas, 95% querem um papel maior do Islã na política.