Título: Uma em cada 4 empresas brasileiras é afetada com importados da China
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 04/02/2011, Economia, p. 26

BRIGA POR MERCADOS: CNI diz que levantamento comprova efeito devastador

Pesquisa mostra que 45% perderam participação no Brasil para chineses

BRASÍLIA. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou ontem um levantamento em que pode ser visto, pela primeira vez, o efeito devastador da concorrência chinesa, dentro e fora do país, sobre o setor produtivo brasileiro. Uma em cada quatro empresas brasileiras é afetada pela competição com importados chineses e quase metade (45%) das indústrias que têm concorrentes do país asiático perdeu participação para eles no mercado doméstico. Além disso, nada menos do que um terço das grandes empresas pretende intensificar importações de insumos.

No exterior, os prejuízos foram ainda maiores: 67% dos empresários perderam participação em terceiros mercados para os concorrentes chineses e 4% simplesmente deixaram de exportar.

- Tem ocorrido um forte crescimento das importações de insumos chineses e isso tende a continuar. O câmbio (dólar desvalorizado ante o real) deixa os produtos chineses mais baratos - explicou Flávio Castelo Branco, chefe da equipe econômica da CNI.

Do total de empresários ouvidos - 1.529, dos quais 904 pequenos, 424 médios e 201 grandes industriais -, 28% afirmaram que competem com mercadorias do país asiático no mercado doméstico. Entre os exportadores, 52% disputam clientes com a China no exterior.

Os setores mais prejudicados são o metalúrgico, o calçadista, o têxtil e o de bens de capital. Neles, mais de 50% das empresas perderam participação de suas vendas no mercado doméstico.

A concorrência no mercado doméstico aumenta de acordo com o porte da firma. Enquanto 24% das pequenas firmas informaram que concorrem com produtos chineses no mercado interno, 32% das de médio porte e 41% das indústrias de grande porte enfrentam esse dilema.

Metade das empresas tem estratégia de enfrentamento

Um ponto positivo é que exatamente a metade das empresas industriais brasileiras já definiu uma estratégia para enfrentar a competição com os asiáticos. Investimento em qualidade, redução de custos, diferenciação da marca e lançamento de novos produtos são atitudes que vêm sendo tomadas pelas empresas brasileiras, para enfrentar a concorrência com os chineses.

- As empresas brasileiras estão investindo em inovação e, ao mesmo tempo, buscando parceria com as chinesas - afirmou Castelo Branco.

Ainda conforme a sondagem da CNI, 10% das grandes empresas já produzem com fábrica própria na China. Mas, quando o empresário que não tem negócios no mercado chinês é perguntado se teria algum dia, quase 80% responderam que não.

Castelo Branco defendeu todos os caminhos possíveis para proteger, mesmo que temporariamente, os setores mais afetados pela concorrência chinesa. O uso de salvaguardas via aumento de tarifa de importação, a maior integração nos trabalhos da Secretaria de Comércio Exterior e da Receita Federal de valoração aduaneira e comparação de preços para evitar fraudes no desembaraço das mercadorias, e a intensificação de medidas para combater a concorrência desleal, com dumping e subsídios, estão entre as ações.

- Se perdemos mercados para a China, geramos menos empregos e menos renda. As empresas brasileiras têm suas estratégias próprias, mas o país tem que ser mais competitivo e buscar melhores condições para atrair empresas no Brasil - advertiu.