Título: Emprego antes de formatura já é passado no Japão
Autor: Tavares, Mônica
Fonte: O Globo, 06/02/2011, Economia, p. 41

Economia estagnada dificulta contratação de jovens profissionais

TÓQUIO. Estresse, incerteza, frustração. São esses os sentimentos que dominam os universitários japoneses, mas não no último ano dos cursos, às vésperas da formatura, como ocorre em outros países. A época mais dura para esses estudantes é o penúltimo ano. No Japão, as empresas têm um processo unificado de contratação de recém-formados e começam a recrutá-los um ano antes de sua graduação. Os candidatos aprovados saem da caçada com a promessa de que, ao receberem os diplomas, terão um emprego.

A estagnação econômica, no entanto, vem reduzindo as contratações de jovens profissionais e transformando um sistema que sempre foi visto como modelo de organização em mais um sinal de que o Japão entrou definitivamente numa nova era. Emprego garantido e estabilidade financeira desde o início da carreira ¿ ícones da segunda maior economia do mundo por décadas ¿ são coisa do passado.

Segundo dados do governo, somente 68,8% dos candidatos entrevistados no último período de contratações, em 2010, conquistaram uma promessa informal de trabalho, índice mais baixo na série histórica. O Ministério da Educação informou que 87 mil universitários que se formam em março (fim do ano letivo) ainda não sabem onde e se trabalharão. Os números levaram estudantes, pela primeira vez, a organizar uma campanha para questionar o que chamam de sistema de uma chance só: quem não é aprovado na seleção feita simultaneamente pelas empresas já sai da faculdade com as portas do mercado fechadas.

Pressionadas por iene valorizado, deflação e concorrência de produtos chineses e coreanos, as companhias japonesas estão contratando menos. O resultado é uma geração de jovens desiludidos, empurrados para o desemprego ou para trabalhos temporários.

¿ A economia japonesa mudou, mas o Japão não ¿ afirma Atsushi Homma, de 22 anos, reclamando da lentidão para o país se adaptar a novos tempos.

Até inclinação em reverência é ensinada

O estudante de economia está prestes a se formar, mas desistiu de disputar uma vaga depois de ser descartado por 20 empresas. Homma é tímido, mas tem feito barulho: é um dos líderes do movimento para discutir novas oportunidades para o começo da vida profissional ¿ debate que tomou conta das redes sociais, chegou aos jornais e terminou em passeatas em Tóquio, coisa rara no país. Ele diz que as universidades viraram um ¿curso preparatório para o vestibular da seleção simultânea¿:

¿ No terceiro ano, as aulas são dedicadas a normas de comportamento. Você aprende o grau de inclinação ao entrar na sala da entrevista e a só se sentar quando receber ordem.