Título: Lula: sindicalistas são oportunistas
Autor: Farah, Tatiana
Fonte: O Globo, 08/02/2011, O País, p. 3

Ex-presidente diz que querem "mudar a regra do jogo" e que espera que haja acordo

Em sua primeira declaração pública sobre o governo Dilma Rousseff desde que deixou o Palácio do Planalto, no dia 1 de janeiro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou ontem os sindicalistas em crise com o governo por causa do reajuste do salário mínimo. Para Lula, cuja trajetória política teve início com a luta sindical nos anos 70, os sindicalistas são "oportunistas" e querem "mudar a regra do jogo", estabelecida com a combinação entre o PIB (Produto Interno Bruto) e a inflação acumulada no período.

- O que não pode é os nossos companheiros sindicalistas mudarem a regra do jogo a cada momento - disse Lula a jornalistas brasileiros em Dacar, no Senegal, antes de participar de uma mesa de debate do Fórum Social Mundial com diversos sindicalistas da CUT (Central Única dos Trabalhadores) na plateia.

Segundo Lula, o acordo do salário mínimo foi fechado durante a gestão do ex-presidente da CUT, Luiz Marinho, no Ministério da Previdência.

- (O acordo) era combinar o PIB com a inflação até 2023 para que a gente pudesse recuperar definitivamente o salário mínimo - explicou Lula, completando: - Aí, você tem uma regra, aprova na Câmara, vira lei e todo mundo fica tranquilo. Ou você fica com o oportunismo: quando a inflação é maior, você quer antecipar; quando o PIB é menor, você quer antecipar.

Críticas à tentativa de mudar acordo

Lula lembrou aos sindicalistas que o acordo foi fechado em seu governo, mas que, apesar de se sentir confortável para intermediar a questão por ser "amigo e companheiro" dos dirigentes sindicais, o assunto já estava sendo tratado pelo ministro Gilberto Carvalho, representante da presidente Dilma Rousseff, e pelo Congresso Nacional:

- Penso que seria prudente que os nossos companheiros sindicalistas soubessem que a proposta não é do governo. É combinada entre todos nós. Então, espero que eles façam um acordo.

Lula reforçou a importância de cumprir o combinado entre governo e centrais sindicais:

- Não é uma boa política essa de querer mudar a cada ano um acordo que a gente faça. Na política vale, muitas vezes, o cumprimento da palavra. Se é verdade que este ano o PIB vai dar zero, no outro ano ia dar 8%. Então, tem a compensação.

O ex-presidente não quis falar sobre os passaportes diplomáticos recebidos por seus filhos e neto dias antes de deixar a Presidência.

- Te incomoda?- retrucou ao jornalista que perguntou sobre os documentos, entrando em seguida no carro que o levou até o debate do Fórum Social Mundial, aberto domingo em Dacar. Ao lado de políticos da África, Lula foi saudado com o tradicional hino de suas campanhas: "olê, olê, olê, olá, Lula, Lula".

Em um café da manhã com a secretária-geral do Partido Socialista Francês, Martine Aubry, ontem pela manhã, Lula defendeu que, como o Brasil, a França tenha uma mulher como presidente da República. O país terá eleições no próximo ano e duas mulheres são cotadas para disputar o cargo com o presidente Nicolas Sarkozy, um dos líderes internacionais mais próximos de Lula.

- Ele disse que seria bom que fosse uma mulher, como Dilma (Rousseff) - afirmou à imprensa Martine Aubry.