Título: Brasil deve voltar a fornecer pesos à Argentina
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 08/02/2011, Economia, p. 20

Cristina Kirchner e Dilma Rousseff negociam acordo para evitar que país sofra nova escassez de notas de 100

BUENOS AIRES. Depois de ter socorrido o governo da presidente Cristina Kirchner nas últimas semanas de 2010, a Casa da Moeda do Brasil deverá exportar papel-moeda durante todo este ano para a Argentina. Segundo informações publicadas ontem pelo jornal "La Nación", os governos Kirchner e Dilma Rousseff estão negociando um acordo de complementaridade industrial entre as casas da moeda de ambos os países que busca, basicamente, evitar que a Casa Rosada enfrente uma nova crise de escassez de notas de cem pesos (US$25).

Além de reforçar o envio de notas de cem pesos, que, devido à escalada da inflação, hoje representam 90% do circulante da Argentina, a Casa da Moeda do Brasil também entregaria ao país vizinho máquinas usadas, que estão sendo substituídas por novos equipamentos. A Casa da Moeda argentina utiliza uma maquinaria fabricada em 1970, com capacidade para imprimir entre 400 milhões e 500 milhões de notas por ano. Em 2010, porém, a demanda do mercado argentino alcançou cerca de 700 milhões de notas, o que obrigou o governo Kirchner a pedir ajuda a seu principal sócio no Mercosul.

Numa primeira etapa, a Argentina importou 9 bilhões de pesos (90 milhões de notas de cem). No total, está previsto que o Brasil envie 16 bilhões de pesos até março. O total a ser importado pela Argentina até o fim deste ano ainda é uma incógnita, mas a própria presidente do Banco Central do país, Mercedes Marcó del Pont, admitiu recentemente a possibilidade de solicitar um novo socorro ao Brasil.

Notas de 100 pesos estão sendo usadas até em táxis

Segundo analistas locais, a demanda de notas cresceu de forma expressiva devido ao aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que no ano passado subiu 25%, segundo empresas de consultoria argentinas - para o Indec, o IBGE local, a inflação foi de apenas 10,9%. Hoje, a nota de cem pesos é usada até mesmo para pagar táxis e outras contas que antes podiam ser saldadas com notas de valores inferiores (10, 20 e 50 pesos). Embora o governo continue defendendo os números do Indec, empresários e sindicalistas já questionaram publicamente os dados do organismo.

- A inflação é uma droga que cria tensões sociais muito fortes - disse ontem o presidente da Fiat na Argentina, Cristiano Rattazzi.

A escassez de papel-moeda provocou, a pedido do ministro da Economia, Amado Boudou, o afastamento do ex-presidente da Casa da Moeda argentina Ariel Rebello. De acordo com informações publicadas pela mídia local, no ano passado Rebello engavetou um projeto de compra de uma nova fábrica para ampliar a capacidade de impressão de papel-moeda da instituição, o que teria provocado a crise enfrentada pelo país em dezembro.