Título: Continente africano ganha novo país
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Fonte: O Globo, 08/02/2011, O Mundo, p. 25
Resultado oficial confirma 98,63% de votos pela secessão do Sudão
Com o anúncio dos resultados finais ¿ que confirmam 98,63% de votos pela independência do Sul do Sudão ¿ o presidente Omar al-Bashir afirmou que aceitaria a separação da região, abrindo caminho para a criação do mais novo país africano, prevista para 9 de julho. Segundo a contagem final anunciada ontem em Cartum, mais de 3,8 milhões de sudaneses do sul votaram pela separação em relação ao Norte, com quem travaram mais de duas décadas de guerra que resultaram na morte de 2 milhões de pessoas. O anúncio foi acolhido com festa nas ruas de Juba ¿ capital do futuro país ¿ e promete melhorar as relações entre Cartum e a comunidade internacional, sobretudo os EUA.
¿ Hoje (ontem), vamos proclamar diante do mundo inteiro nossa aceitação e nosso respeito pela escolha do povo do Sul ¿ disse Bashir.
Por sua vez, o governo autônomo prometeu uma grande modernização para a capital do futuro país ¿ que provavelmente se chamará Sudão do Sul.
EUA estudam retirar país de lista de Estados terroristas
O referendo ¿ elogiado pela comunidade internacional pela sua transparência ¿ era um elemento-chave nos acordos de paz estabelecidos em 2005 entre Cartum e os rebeldes sulistas. Para o embaixador brasileiro no país, Antonio Pedro, o processo mostra que as duas partes estão cansadas da guerra.
¿ Quantos países tiveram a maturidade política de consultar sua população sobre uma independência, sabendo que o resultado seria desfavorável? Lembro-me agora só do Canadá.
Os responsáveis dos dois lados terão agora menos de seis meses para chegar a um acordo sobre algumas das questões mais sensíveis, como a delimitação de fronteiras, a divisão da renda do petróleo ou ainda o status da região petrolífera de Abyei. Mas ainda que as duas partes resolvam esses pontos mais problemáticos até julho, os dois países continuarão economicamente dependentes um do outro: o Sul precisa do oleoduto do Norte para exportar seu petróleo. Mas para Maria Gabrielsen, especialista em Sudão do Instituto Político de Paris, o futuro país terá nos vizinhos uma oportunidade de escapar da dependência do Norte.
¿ Se as tensões entre as duas partes recrudescer, existe uma grande possibilidade que o Sul construa um novo oleoduto, passando pelo Quênia. A chegada de novos doadores internacionais no futuro país deve dinamizar a região, e países como Uganda e Quênia podem criar um novo parceiro econômico na região, e diminuir a dependência econômica do Sul com o Norte.
O clima ontem nas altas esferas políticas, no entanto, era de apaziguamento. Além da declaração de Bashir ¿ que acalmou quem teme uma possível escalada de tensão entre os dois lados após o referendo ¿ o líder do Sul, Salva Kiir, afirmou que participaria de uma campanha ao lado de Cartum para pedir o perdão das dívidas e o fim das sanções contra o Sudão. Atualmente, nenhuma empresa cotada na bolsa americana pode comercializar com o país. Mas num gesto que demonstra o peso do referendo nas relações entre Washington e Cartum, o Departamento de Estado afirmou que começaria o processo para retirar o Sudão da lista de países que apoiam o terrorismo.
Separação terá consequências para Darfur
O resultado do referendo também foi acompanhado de perto por outra região marginalizada do Sudão ¿ Darfur ¿ que pode ganhar maior peso dentro do país, segundo Maria Gabrielsen.
¿ Isso muda todo o equilíbrio de forças no Sudão. Antes, Darfur era apenas mais uma região marginalizada, junto com o Sul e o Leste ¿ explica. Mas existe um risco. Na verdade, a relativa tranquilidade do referendo foi obtida às custas de uma repressão mais dura de Darfur nos últimos meses. Pode ser que membros do governo que não estejam satisfeitos com a perda do Sul resolvam controlar Darfur com ainda mais força.