Título: O samba do 'todo mundo sabia'
Autor: Vasconcellos, Fábio; Galdo, Rafael
Fonte: O Globo, 09/02/2011, Rio, p. 12

Empreiteira fez reparos há 20 dias no sistema de água a pedido da RioUrbe

Uma tragédia anunciada. Integrantes das escolas da Cidade do Samba já haviam informado à prefeitura problemas no sistema de água para o combate a incêndios do complexo que abriga 12 agremiações e que foi parcialmente destruído anteontem. Em novembro do ano passado, as escolas enviaram um relatório para a RioUrbe, no qual descreviam a falta de água nos sprinklers (sistema de combate a incêndio). A RioUrbe confirmou ontem que recebeu o documento e que, após várias reuniões com a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), o consórcio que ergueu o empreendimento, formado pelas construtoras Delta e Oriente, realizou os reparos há cerca de 20 dias. A Delta não quis comentar o caso.

O relatório da Liesa foi produzido após um princípio de incêndio num dos barracões há cerca de um ano. Um integrante da diretoria de uma grande escola, que pediu para não ser identificado, contou que os funcionários da Cidade do Samba chegaram a acionar os sprinklers, mas não havia água no sistema. A falta d'água, que já teria ocorrido outras vezes, em diferentes agremiações, foi comunicada à Liesa, que comunicou à RioUrbe e pediu que o problema fosse sanado. Anteontem, outros funcionários de duas escolas diferentes já haviam dito que, há pelo menos dois anos, os sprinklers também não funcionavam automaticamente e que tinham que ser acionados manualmente. Ontem, os bombeiros informaram que será preciso reformular todo o sistema de sprinklers, com aumento da pressão e da capacidade de vazão da água.

Integrantes das agremiações também já teriam manifestado a preocupação em relação ao fato de alguns barracões serem separados apenas por uma parede, como ocorria entre os barracões da Liesa, da União da Ilha, da Portela e da Grande Rio, atingidos pelo fogo desta semana. Segundo esses mesmos integrantes, desde a construção da Cidade do Samba, em 2005, eles temiam que a proximidade dos barracões poderia facilitar a propagação de um possível incêndio.

Apólice de seguro de R$40 milhões

Enquanto as autoridades avaliam as causas do incêndio, as escolas começam a calcular os prejuízos. Presidente da Liesa, Jorge Castanheira informou que, desde anteontem, técnicos da seguradora Mafra, empresa responsável pelo seguro contra acidentes da Cidade do Samba, já avaliam as perdas provocadas pelo incêndio. Segundo ele, até sexta-feira deve ser fechado um balanço dos prejuízos. Para o conjunto dos 14 barracões da Cidade do Samba, segundo Castanheira, o valor da apólice de seguro gira em torno de R$40 milhões, incluindo as estruturas dos prédios e o material que há dentro deles. Agora, é preciso calcular a cota que cabe às agremiações atingidas.

Castanheira disse ainda que, até o fim desta semana, deve começar a demolição dos barracões destruídos pelo fogo. No caso da União da Ilha, da Portela e da Liesa, Castanheira acredita que a estrutura do térreo não tenha sido comprometida, e possivelmente será mantida. No interior do barracão da União da Ilha, o cenário de destruição impressiona: alegorias, fantasias e adereços queimados cobrem parte do chão. No barracão da Liesa, ironicamente, a única coisa intacta dentro do espaço são as mangueiras e um extintor de incêndio, que não chegaram a ser usados. Fantasias e manequins chamuscados podem ser vistos por todos os lados.

As causas do incêndio serão investigadas também pelo Ministério Público. A 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva instaurou inquérito civil para apurar o que provocou o incêndio. Na Alerj, o deputado Dionísio Lins (PP) pediu a instalação de uma Comissão Especial para acompanhar as investigações sobre o incêndio.