Título: Freio nos preços dos seguros
Autor: Rosa, Bruno; Araújo, Vera
Fonte: O Globo, 09/02/2011, Economia, p. 19
Com UPP e Lei Seca, apólice de carro fica até 37% mais barata
Os preços dos seguros de carros na Região Metropolitana do Rio caíram em média 15,7% em 2010, de acordo com levantamento feito pelo Sindicato das Seguradoras do Rio. Em alguns casos, o valor está até 37% menor na cidade. Mas em Duque de Caxias houve queda de até 38%. Segundo analistas, os motivos são a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e a repressão a roubos e furtos de automóveis, além da implantação da Lei Seca. Dados do IBGE confirmam o estudo e apontam recuo de 12,6% na apólice paga pelos cariocas no ano passado em relação a 2009. O número ficou bem acima da média nacional, que registrou retração de 3,53%.
Especialistas atribuem à Lei Seca, que começou a vigorar em março, a redução do número de colisões nas principais vias da cidade. Para completar o quadro, analistas afirmam que a concorrência entre as seguradoras tem aumentado, o que puxa a redução nos valores cobrados. Roberto Santos, vice-presidente do Sindicato das Seguradoras do Rio, no entanto, fala sobre a importância do efeito psicológico das implantações das UPPs:
- Claro que há um efeito psicológico maior. Mas as UPPs não foram as únicas responsáveis pela queda nos preços. A Secretaria de Segurança Pública passou a investir em ações para combater os desmanches ilegais de carros. Houve mais operações policiais em locais e em horários que registravam aumento nas ocorrências de roubos - destaca Santos.
Ferro-velho é destino de 20% dos veículos
Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que, em janeiro deste ano, houve queda de 27% no número de roubos de veículos em relação ao início de 2010: de 1.820 para 1.335 ocorrências. O diretor de uma seguradora acrescenta que a instalação das UPPs e o fato de a Lei Seca ter dado certo no Rio, diferentemente de outras cidades do país, explicam o maior ritmo de queda dos preços no Rio. Em Fortaleza, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre, os valores subiram em 2010.
- O efeito da UPP é imediato. E isso influencia a análise de risco dos bairros vizinhos. Basta uma seguradora baixar o preço para os concorrentes fazerem o mesmo - detalha o executivo.
Segundo preços fornecidos pela Bradesco Seguros, a apólice do modelo Toyota Hilux SR 2.7, modelo de 2010 - o mesmo usado na fuga dos bandidos da Vila Cruzeiro, transmitida pela Rede Globo -, registra queda de 37%, no caso de o seguro ser feito por quem mora na Vila da Penha, um dos bairros que receberam a UPP durante a operação na região no fim de 2010. Já em Duque de Caxias, onde ainda não há UPP e que estaria entre as comunidades em que os traficantes expulsos do Complexo do Alemão estariam escondidos, a queda foi de apenas 9% entre 2010 e 2011.
No caso de um Corsa 1.0, modelo de 2009, os preços também mostram recuos maiores em bairros que receberam UPP. No caso de o segurado morar em Vila Isabel, o valor caiu 14%; em Copacabana, a redução chegou a 10%; e na Tijuca, a 16%. Na Ilha, a retração chegou a apenas 5%.
Mas as reduções variam por empresa. Levantamento feito por uma corretora mostra que na Tijuca, por exemplo, o seguro da Mapfre para um Gol 1.0, ano 1999, caiu quase 23%.
- Os preços são estratégicos. Nenhuma seguradora gosta de falar de seus cálculos, ainda mais em um mercado em que há competição pesada - diz o executivo de uma empresa.
Santos, do Sindicato das Seguradoras, cita a redução de preços em locais como Niterói (10,8%), Nova Iguaçu (21,4%) e Madureira (13,5%).
- Houve reflexos positivos em toda a região metropolitana. Em bairros como Copacabana e Botafogo, onde a UPP chegou há dois anos, os índices de roubo já eram menores, por isso a queda percentual nesses bairros acaba sendo menor - explica Santos.
No caso do combate ao desmanche ilegal, em ferros-velhos, serão destruídas em março cerca de 6 mil peças de veículos roubados, apreendidas em 30 operações desde 19 de setembro de 2010. O titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), delegado Márcio Dubugras, estima que 20% dos veículos roubados ou furtados têm como destino os ferros-velhos.
- O combate à comercialização de peças de origem ilícita é primordial. Esse tipo de ação resulta na queda do número de roubos e furtos. Os donos de ferros-velhos estão agindo de maneira semelhante aos traficantes. Eles põem olheiros para avisar sobre a chegada da polícia, para fugirem do flagrante. Assim, estamos trabalhando agora com carros descaracterizados, sem o logotipo da Polícia Civil.
Nos últimos dois anos, 350 estabelecimentos foram interditados. Nesse período, cerca de 120 donos de ferros-velhos foram presos. No estado, apenas 48 ferros-velhos têm autorização para funcionamento, ou seja, mais de 80% atuam na ilegalidade.