Título: Premier francês viajou em avião de Mubarak
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Fonte: O Globo, 09/02/2011, O Mundo, p. 28
Declaração de François Fillon aprofunda crise no governo, que já enfrenta pedidos por renúncia de chanceler
PARIS. Após revelações sobre a aproximação da chanceler francesa, Michèle Alliot-Marie, com o regime do tunisiano Zine al-Abidine Ben Ali pouco antes de sua queda, agora é a vez de o premier François Fillon abrir uma crise no governo por suas relações com um outro dirigente do mundo árabe: o contestado ditador egípcio, Hosni Mubarak. Antecipando a publicação da reportagem do jornal ¿Le Canard Enchaîné¿, Fillon admitiu ontem ter utilizado um avião da frota egípcia colocado à sua disposição por Mubarak durante uma viagem pessoal que fez ao Egito no Natal do ano passado.
Mas as revelações não param por aí. Num comunicado oficial, o premier afirma, ¿por questão de transparência¿, que foi alojado durante suas férias por autoridades egípcias. Segundo o ¿Canard Enchaîné¿, ele ficou hospedado numa casa privada dentro do resort cinco estrelas Mövenpick, numa ilha do país. Ele então viajou entre Assuan e Abu-Simbel, onde visitou dois templos antigos, num avião da frota governamental egípcia. Além disso, Fillon fez um cruzeiro no Nilo às custas do governo do Cairo, e encontrou o presidente Mubarak em 30 de dezembro, em Assuan. Para chegar ao país, Fillon viajou num avião do governo francês ¿ um Falcão 7X.
¿Um voo entre Assuan e Abu-Simbel num jato emprestado de forma amável não por um simples amigo do regime, como ocorreu com Alliot-Marie, mas pelo simpático Hosni Mubarak em pessoa. A hierarquia foi respeitada, o primeiro-ministro foi ainda mais longe do que a chanceler¿, ironiza o semanário, que vai hoje às bancas. ¿Várias companhias fazem o trajeto aéreo entre Assuan e Abu-Simbel, por um preço médio de 250 ida e volta. Mas um avião privado é mais chique.¿
Em Paris, a sede do governo emitiu nota na qual tentou justificar ao menos a viagem no avião francês.
¿O primeiro-ministro efetua todos os seus deslocamentos a bordo de aparelhos da frota governamental, por razões de segurança e disponibilidade. Por se tratar de um deslocamento privado, seu bilhete e o de sua família foram debitados dos seus gastos pessoais segundo as tarifas estabelecidas pela Aeronáutica¿, explica o comunicado.
As declarações semearam a confusão no Parlamento, onde a oposição pede a renúncia de Michèle Alliot-Marie, que confessou na semana passada ter viajado na Tunísia a bordo de um jatinho do cunhado de Ben Ali, e ter se hospedado num hotel de grupos ligados ao então ditador, em dezembro. Até mesmo os deputados do partido governista UMP ¿ que reafirmaram ontem seu apoio à chanceler ¿ pareciam ter sido surpreendidos pelas informações do premier. Por sua vez, a oposição, aturdida, discutia sem chegar a uma conclusão se pediria ou não a renúncia do chefe de Governo.
¿ É uma derrota a mais para a República. Michèle e Fillon estão numa confusão total sobre a maneira na qual eles utilizam os meios do Estado ¿ disse o deputado do Partido Socialista, Bruno Le Roux.
Mubarak era ¿elemento de estabilidade¿, diz aliado
Mas para Jérôme Chartier, do UMP e próximo a Fillon, há uma diferença entre a viagem da chanceler e a do premier.
¿ Em 30 de dezembro (data do encontro entre Fillon e o presidente egípcio) Hosni Mubarak era um elemento de estabilidade do Oriente Médio.
Por sua vez, Lionnel Luca, outro deputado do partido, lembrou que ¿um antigo presidente socialista, François Mitterrand, tinha suas relações no Egito¿.
Mais cedo, antes de admitir a viagem ao país africano, Fillon havia ido a público para anunciar o seu apoio a Michèle Alliot-Marie, diante dos pedidos de renúncia feitos pela oposição.
¿ Eu queria reforçar a Michèle todo o meu apoio. Ela tem o apoio também do presidente da República, Nicolas Sarkozy.
A posição do chefe de governo foi ironizada por Noël Mamère, do Partido Verde.
¿ Agora compreendo melhor por que François Fillon não queria permitir de jeito nenhum a saída de Michèle Alliot-Marie.