Título: Conter a inflação é prioridade
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Fonte: O Globo, 10/02/2011, Opinião, p. 6

Pela terceira vez desde outubro, a China elevou as suas taxas básicas de juros (agora em 0,25 ponto percentual, chegando a 6,06%), na tentativa de conter a alta da inflação. Por muitos anos a China conseguiu que sua economia crescesse aceleradamente com inflação baixa (embora as estatísticas chinesas não sejam consideradas de todo precisas e confiáveis, este fenômeno não foi contestado pelos analistas financeiros), mas a expansão recente dos preços tem modificado tal quadro. É natural que isso viesse a acontecer a partir do aumento de consumo por parte de uma classe média urbana em ascensão no país mais populoso do planeta.

O enorme investimento que a China tem feito em sua economia já vinha pressionando os preços de matérias-primas e alguns produtos intermediários, e a esse acréscimo de demanda veio se somar um maior consumo por alimentos na maioria dos mercados emergentes.

A crise financeira mundial criou expressiva capacidade ociosa temporária nas indústrias dos países ricos, a ponto de provocar deflação em muitos bens manufaturados (cujos preços já haviam baixado devido à oferta chinesa desses produtos). No entanto, os estoques já foram absorvidos, e também não se pode contar mais com essa contribuição dos manufaturados para contrabalançar a tendência de alta dos produtos básicos.

Desse modo, economias emergentes, como a do Brasil, estão hoje mais vulneráveis a pressões inflacionárias. A própria China, mesmo elevando suas taxas básicas de juros, estaria inclinada a aceitar uma meta mais alta de inflação (em torno de 4%, no lugar dos 3% não alcançados em 2010). As autoridades chinesas até admitem que terão de valorizar sua moeda, o yuan.

O Brasil, por peculiaridades conjunturais, inclusive políticas, foi tolerante com a inflação antes dessa onda altista no mundo. As metas estão mantidas (4,5%, com um intervalo de dois pontos percentuais para mais ou para menos) e o novo governo não poderá fraquejar, pois sabe-se muito bem o esforço necessário para que a inflação retroceda a um patamar de menos de 5% ao ano (acima do recomendável, mas aceitável para um período de transição).

A variação do IPCA de janeiro último (0,83%) mostra que o problema não deverá dar trégua em 2011. Serviços e alimentos provavelmente continuarão a pressionar os índices; e do câmbio valorizado não se deve esperar mais contribuição para segurar os preços internos.

A única saída é evitar um superaquecimento da economia. Não é desejável que a demanda esfrie pelo lado dos investimentos (ao contrário, o ideal é que não percam o ritmo, para aumentar a capacidade de oferta futura), e sim pelo consumo excessivo.

Ao que tudo indica, teremos este ano uma combinação de política monetária mais apertada (com juros básicos mais elevados e restrições ao crédito) e uma política fiscal que segure as despesas governamentais. Não por acaso o governo Dilma tem resistido a aumentar o salário mínimo além dos R$545 propostos conforme a regra em vigor. Os mercados financeiros parecem estar mais confiantes nos resultados dessa combinação, tanto assim que as taxas de juros nos mercados futuros recuaram nos últimos dias.Mas o ponto-chave é a área fiscal.