Título: Crédito menos farto e mais caro
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 10/02/2011, Economia, p. 21
Juros de financiamentos sobem até 2,5% e prazos de pagamento caem. Inadimplência sobe 24%
Oconsumidor já sente no bolso o crédito mais caro e difícil neste início de ano. As taxas do crediário subiram 1,76%, de 5,69% ao mês (ou 94,27% ao ano), em dezembro, para 5,79% mensais (96,49% anuais) em janeiro. No caso dos financiamentos de carros, a taxa subiu 2,50%, de 2,4% ao mês (32,92% ao ano) para 2,46% (33,86%) no período. Os dados são da Anefac, a associação dos executivos de finanças. Além disso, para financiar um carro, por exemplo, a maioria dos bancos agora pede a clientes entradas entre 20% e 30% do valor do veículo, enquanto os empréstimos sem entrada eram os mais comuns. O prazo de 60 meses foi reduzido para 24 ou 48 prestações. Ao mesmo tempo, a inadimplência acelerou em janeiro e subiu 24,8% em janeiro na comparação com o mesmo mês de 2010, a maior alta desde junho de 2002. Os dados são do Indicador Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor, divulgados ontem. Para analistas, os números acenderam a luz amarela.
- O aumento da inadimplência assustou e veio acima das expectativas - disse Antônio Cesar Carvalho de Oliveira, especialista em gestão e diretor da Acomp Consultoria, especializada em varejo.
E o cenário, dizem economistas, ficará mais severo, com a expectativa de novas altas nos juros básicos, a Selic, para segurar o avanço da inflação. O Banco Central (BC) elevou a taxa a 11,25% ao ano em janeiro. Além disso, em dezembro de 2010, o BC elevou o compulsório dos bancos (parcela que as instituições são obrigadas a recolher à autoridade monetária, sem remuneração), reduzindo em R$65 bilhões a circulação de dinheiro na economia, e obrigou os bancos a aumentarem suas garantias em financiamentos acima de 24 meses.
Comércio dá mais descontos à vista
No caso dos prazos de financiamento de carros, o prazo máximo caiu de 80 em janeiro do ano passado, para 60 meses no mês passado. O prazo médio foi de 42 para 41 meses. Para compras em geral, o número máximo de parcelas caiu de 36 para 24, e, na média, de 16 para 12.
- Todas as ações feitas pelo Banco Central causaram essa mudança no cenário. Em fevereiro, haverá novas altas. É claro que ainda existem aqueles financiamentos mais longos, mas eles estão mais difíceis de se obter, já que os bancos estão mais exigentes na hora de conceder crédito. Comprar carro sem entrada ficará mais raro e caro. O comércio vê que as taxas estão maiores e estão numa saia justa - diz Miguel José Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Anefac.
Nas concessionárias, o efeito é mais pesado para o consumidor. Francisco Veríssimo, sócio da Distac, uma das maiores concessionárias da Volkswagen no Rio, revela que os juros para clientes que compram carros sem entrada aumentaram de 1,4% ao mês para 1,78% mensal, em média.
- O cliente que compra um modelo dando uma entrada ainda tem juros no mesmo patamar. Mas os bancos vão aumentar as taxas em breve.
Gustavo Brito Silva Araújo, diretor da concessionária Disnave, no Shopping Nova América, também percebeu o mesmo movimento. Ele acrescenta que os prazos de financiamento estão mais curtos:
- Antes o principal era o financiamento de 60 meses; agora caiu para 24 e 48 prestações. Os bancos estão mais restritos em conceder crédito. Claro que há financiamento de todos os tipos, mas os custos estão maiores.
No comércio, com receio de perder clientes, parte do varejo tenta de tudo para driblar a alta dos juros. A principal aposta é o maior desconto no pagamento à vista. No Shopping Nova América, por exemplo, a loja de Colchões Sleep aumentou de 10% para 15% o desconto no pagamento à vista. A mesma estratégia fez a grife feminina M.Bruzzi, com lojas em Copacabana e no Centro do Rio, cujo desconto passou de 5% para 10%. A ação tem ganhado adeptos. O técnico em administração Manuel Barroso sempre tenta negociar quando paga em parcela única. Foi assim que conseguiu economia superior a R$400 na hora de comprar eletroeletrônicos:
- Não gosto de parcelar, pois os juros são altos. O varejo tem ficado mais agressivo nos descontos.
Além disso, algumas empresas decidiram reduzir o valor mínimo da prestação para encorajar clientes a encarar um novo parcelamento. É o caso da Mr.Cat, no Shopping Grande Rio, cujo valor mínimo de compras para parcelamento em até cinco vezes foi reduzido de R$500 para R$300.
- Muitas lojas não querem perder vendas. E aí é uma questão de sobrevivência - diz Oliveira.
Antônio Cesar, da Acomp Consultoria, lembra que, com juros maiores, os custos sobem para as redes que precisam de crédito:
- E esse custo maior acaba sendo repassado para o consumidor. Acontece que, nesse primeiro momento, os varejistas estão tentando absorver parte do impacto. Mas, entre fevereiro e março isso não será mais possível, já que o crédito ficou mais enxuto desde dezembro. O aumento de um mês para o outro é sempre muito pequeno, mas os juros no comércio sobem desde novembro.