Título: No fundo, erros do proprio FMI na crise global
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 10/02/2011, Economia, p. 24

Agência da instituição revela pressões de países ricos e informes que não mostravam situação real de 2004 a 2007

A grande tendência em se conformar com uma determinada opinião, sem checar os fatos; a propensão generalizada de que era improvável haver uma crise financeira nas economias avançadas; equívocos primários de julgamento; e, em especial, o temor de seus economistas em criticar os erros que notavam na política econômica dos Estados Unidos e de outros países ricos (ao serem intimidados por suas autoridades), fizeram com que o Fundo Monetário Internacional (FMI) fracassasse totalmente em advertir o mundo sobre a crise financeira que se agravou em 2007 ¿ a maior desde a Grande Depressão ¿ e a tomar providências para atenuar seu impacto enquanto havia tempo. Os sinais eram claros desde 2004.

Essas são as principais constatações feitas pelo Escritório de Avaliação Independente (IEO, na sigla em inglês), uma agência do próprio FMI encarregada de monitorar tanto suas atividades quanto suas políticas. Ela apresentou ontem um informe afirmando que ¿os problemas revelados por essa avaliação vêm de longa data¿, acrescentado que eles já tinham sido ¿sublinhados por mais de uma década¿.

Pela primeira vez, esse grupo, que tem acesso a toda a documentação do FMI e também realizou entrevistas com os economistas da casa ¿ além de uma pesquisa interna ¿ , apontou a existência de coações e pressões políticas de países ricos sobre funcionários do Fundo. Tais intimidações, segundo o IEO, incluíam exigências para que o FMI substituísse economistas da equipe encarregada de monitorar a economia daquelas nações, devido a suas opiniões críticas.

Omissão sobre os EUA e autocensura de economistas

Registraram-se, ainda, outras atitudes de arrogância, como a de que o FMI não realizou um exame de praxe ¿ a Avaliação da Estabilidade do Setor Financeiro ¿ em relação aos EUA, porque as autoridades americanas não concordavam com isso. Várias solicitações nesse sentido foram feitas de 2004 e 2007 e jamais atendidas. ¿Essa omissão é lamentável porque tal avaliação possivelmente detectaria algumas das vulnerabilidades que vinham se desenvolvendo¿, diz.

Moises Schwartz, diretor do IEO desde 2009, registrou que as pressões têm feito com que alguns funcionários pratiquem a autocensura: ¿Vários membros sêniores da equipe de economistas sentiram que expressar opiniões contrárias poderia acabar com a carreira deles¿.

Outro ardil utilizado pelos países ricos, no FMI, tem sido o de solicitar à direção a alteração de trechos críticos em textos de informes técnicos a respeito de sua política econômica. ¿As reuniões de conclusão (do monitoramento anual) eram realmente apenas sessões de negociação sobre o texto do informe¿, disse um dos funcionários ao IEO. ¿As equipes pareciam mais à vontade em apresentar análises duras a países emergentes.¿

O informe acrescenta que a autocensura parecia ser um fator significativo: ¿O sentimento era o de que `você não pode falar a verdade às autoridades, já que você é propriedade dos governos delas¿¿, diz o documento. Outro fator responsável pela autocensura é que os economistas do FMI percebiam que, em caso de discordância, a diretoria do Fundo ¿acabaria endossando as posições das autoridades dos países em vez de apoiar as de suas próprias equipes¿.

O estudo mostra que enquanto a crise se formava, o FMI emitia boletins dizendo o contrário. Em julho de 2007, um deles afirmava: ¿A expansão global permanecerá vigorosa¿. Segundo o IEO, o FMI não percebeu os elementos que sustentavam o desenvolvimento da crise.

Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI, acatou os resultados. Ele e todo o conselho de direção foram informados dos resultados numa reunião no último dia 26. Em nota divulgada ontem, o executivo disse que, embora já esteja ocorrendo uma reforma estrutural no Fundo, é preciso ¿pensar em fazer mais¿. O IEO pede também uma mudança de cultura, dizendo que o FMI opera ¿como se fosse formado por pequenos feudos¿.