Título: A vasta e complexa máquina militar
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Fonte: O Globo, 13/02/2011, O Mundo, p. 35
O Exército de meio milhão de homens do Egito é o maior da África e o 11º do mundo. Desde que começou, nos anos 70, a ajuda militar americana ao país atingiu impressionantes US$ 40 bilhões. E agora isso é cobrado, desde o colapso do regime de 30 anos de Hosni Mubarak, com o funcionamento do país.
Quarenta por cento das tropas são recrutadas, sugerindo que, apesar de seu tamanho e de sua influência sobre a sociedade egípcia, ainda está por vir a transição para uma força militar profissional. Estruturas de pessoal continuam rígidas, não há meio de recrutamento entre sub-oficiais e oficiais, e a única possibilidade de realistamento é para mais 20 anos de serviço.
Nenhum partido político de oposição se atreve a criticar abertamente os militares, porque a desaprovação não só cruza uma informal linha vermelha desenhada rigidamente pelo governo, mas também porque esse criticismo não teria impacto entre a maioria dos egípcios.
Tangíveis interesses econômicos e políticos sustentam a popularidade dos militares. Eles comandam um império econômico que se alastra e produz uma vasta gama de bens e serviços militares e civis, e nenhum aparece no Orçamento nacional. Observadores comparam o marechal, ministro de Defesa e agora chefe do Alto Conselho Militar que controla o Egito, Mohamed Tantawi, ao CEO do maior conglomerado corporativo do país.
Na metade dos anos 80 o Banco Mundial pediu que as empresas militares fossem vendidas a interesses civis, como parte de um programa mais amplo de privatização ¿ conselho que foi rejeitado. Desde então, a economia militar continuou a se expandir. Paradoxalmente, ela tem se beneficiado do programa, com empresas originalmente civis sendo entregues ao controle militar. Esse comando é garantido na Constituição, que dá poder ao presidente, quem quer que ele possa eventualmente ser, para determinar a composição do corpo de oficiais e selecionar o gabinete ¿ portanto, também escolher o ministro da Defesa e o ministro da Produção Militar, que preside a economia militar.
O marechal Tantawi tem administrado por muito tempo as duas mesas, o que sugere o grau de interligação entre as Forças Armadas e o seu império econômico. Os únicos funcionários civis no Ministério da Defesa ¿ e não é brincadeira ¿ são os que servem chá e café.
A sociedade civil tem sido passiva diante da autonomia militar. Ela não tem acesso a informações relevantes sobre as Forças Armadas. A oposição política, mesmo se quiser, não pode ganhar tração popular rapidamente com uma campanha que sujeite os militares ao controle civil, reduza o seu tamanho e restrinja seu papel na economia, mudança que, até mesmo agora, seria notável.
No momento, apesar dos indubitáveis progressos em mobilizar milhões de egípcios para protestar contra a ordem política militar, a oposição não é mais popular que as Forças Armadas.