Título: O primeiro dia sem o ditador
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Fonte: O Globo, 13/02/2011, O Mundo, p. 35
Exército promete respeitar tratados e já admite participação civil no processo de transição
CAIRO, Egito.
No primeiro dia em 30 anos sem o ditador Hosni Mubarak no comando do país e após 18 dias de protestos violentos, a calma voltou ao Egito. Na Praça Tahrir, epicentro da revolta popular que derrubou o presidente, enquanto alguns levantavam acampamento, muitos aguardavam, em vigília, os próximos passos do governo provisório. Tentando assegurar manifestantes e a comunidade internacional, o Conselho Superior das Forças Armadas, que atualmente comanda o país, anunciou que respeitará todos os tratados internacionais ¿ o que inclui o acordo de paz com Israel ¿ e aceitará a participação civil no processo de transição. Sem dar datas, o Exército afirmou, ainda, que o governo nomeado por Mubarak continuaria no poder até a formação de um novo gabinete. Mas manifestantes emitiram um comunicado, pedindo a suspensão imediata do estado de emergência, bem como a participação civil no governo militar, e prometeram convocar protestos semanais para pressionar por reformas democráticas.
¿ Os militares estão conosco, mas precisam acatar nossas demandas. Meia revolução pode ser letal para uma nação ¿ disse o comerciante Ghada Elmasalmy. ¿ Agora, conhecemos o nosso lugar; sempre que houver injustiças, voltaremos à praça.
O anúncio sobre a manutenção dos tratados, no entanto, foi capaz de acalmar a apreensão de Israel ¿ com quem o Egito já travou quatro guerras. Em nota, o premier Benjamin Netanyahu saudou a notícia, lembrando que o tratado entre os dois países ¿é a pedra angular da paz e estabilidade no Oriente Médio¿.
Durante o dia de ontem, veículos queimados foram rebocados e soldados tiraram barricadas para abrir o caminho até a Praça Tahrir. As autoridades reduziram o toque de recolher: das 20h às 6h para de meia-noite às 6h. O comércio já voltou a funcionar e a bolsa de valores reabre na quarta-feira. O Exército também desmontou alguns postos nos arredores de Tahrir. No total, foram 18 dias de comícios na praça, onde manifestantes resistiram a ataques da polícia, balas de borracha e gás lacrimogêneo. O líder do comitê militar, o ministro da Defesa Mohammed Tantawi, que agora comanda o país se encontrou com o ministro do Interior para discutir uma rápida relocação de forças policiais que estão nas ruas. Além disso, Tantawi se reuniu com o premier, o ministro da Justiça, e o chefe da Corte Constitucional.
Há rumores de que Mubarak, cujos bens foram congelados pela Suíça, tenha fugido do Egito. No entanto, funcionários do aeroporto que não se identificaram dizem que atuais e ex-autoridades do governo estão proibidas de viajar sem a permissão de um procurador ou das Forças Armadas. Eles ainda afirmam que possuem uma lista dos integrantes do antigo regime, e que já impediram o ministro da Informação, Anas El-Fekky, de sair do país. Segundo militares, El-Fekky foi colocado em prisão domiciliar.
Sem previsão para eleições
Em dois comunicados, os organizadores dos protestos pediram a suspensão do estado de emergência, a libertação dos presos políticos e a dissolução das cortes militares. Eles também querem a participação civil no processo e sugerem um conselho presidencial de transição formado por quatro civis e um militar. Esse gabinete seria responsável por preparar as eleições a serem realizadas em setembro. O comunicado pediu, ainda, a formação de um grupo responsável por elaborar o primeiro esboço de uma constituição democrática e liberdade para a imprensa e os sindicatos.
Um outro grupo de manifestantes, chamado União da Revolução Jovem, que cadastrou 14 mil membros em quatro horas, afirmou que entregaria ao Conselho Supremo um roteiro com os próximos passos necessários
O Conselho Supremo deu poucos detalhes sobre o que foi considerado uma ¿fase de transição¿. Sem fornecer qualquer previsão sobre eleições presidencial e parlamentar, disse apenas que pretende ¿alcançar as expectativas de nosso grande povo¿.
Segundo a al-Arabya, o Exército poderia, em breve, dispensar o Gabinete e suspender o Parlamento. O comando da Corte Constitucional poderia se juntar à liderança com o Conselho, a quem foi dada a tarefa de comandar o país e seus 80 milhões de habitantes.
Líder do Conselho, Tantawi teria uma reputação controversa dentro das próprias Forças Armadas de seu país, segundo documentos vazados pelo site WikiLeaks. Diplomatas americanos enviados pela embaixada do Cairo em 2008 contavam que Tantawi foi ridicularizado por oficiais de nível médio, que o chamavam de ¿o poodle de Mubarak¿.