Título: Contra violações, Brasil quer rigor sem ideologia
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 15/02/2011, O País, p. 9

No governo Dilma, diplomacia muda o tom sobre questões de direitos humanos nas reuniões do Conselho da ONU

BRASÍLIA. Depois de ser duramente criticada por ter deixado de votar, no ano passado, uma moção contra o Irã, a diplomacia brasileira mudou o tom e apresentou no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas proposta defendendo que os casos de violação sejam tratados "sem alinhamento ideológico". Ou seja, o conselho deve tratar de casos específicos com o mesmo rigor. Essa nova orientação pode levar, inclusive, o Brasil a votar de maneira diferente se o tema do Irã for à votação no Conselho.

A proposta brasileira foi apresentada no último dia 4, depois de o país ter sido encarregado de atuar como facilitador em um acordo no âmbito do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. A postura brasileira já rendeu ao país o apoio da organização não governamental Human Rights Watch. Na última sexta-feira, a ONG enviou ao ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, carta elogiosa, interpretada como o primeiro fruto do governo Dilma Rousseff na área.

No fim do ano passado, o Brasil chegou a ser criticado por não ter votado contra o Irã em função de violações como o apedrejamento de mulheres. Os brasileiros se abstiveram durante uma votação na Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Nova York. O argumento de que o país é contra a seletividade e a discriminação foi usado como justificativa para o voto. Agora, diante da hipótese de o Irã voltar a ser objeto de votação, desta vez, no fórum em Genebra, integrantes do governo brasileiro admitem a possibilidade de mudança.

- Os americanos estão alardeando que apresentarão outra proposta nesse sentido ao Conselho de Direitos Humanos. Nossa reação vai depender do que conversarmos. Em Nova York, os EUA vieram com um papel pronto, sem conversar, apenas pedindo para que assinássemos. Deixamos claro que temos de ser tratados com mais respeito - relatou ao GLOBO um alto integrante do governo brasileiro.

Na visão dos negociadores brasileiros, se é para condenar a violação em uma nação específica, a motivação não deve ser porque ela é inimiga deste ou daquele país. Tanto que na carta a ONG diz que, até agora, o Conselho falhou ao tratar de assuntos específicos como violações no Irã, na base de Guantánamo e no Egito.

Segundo a Human Rights, a delegação brasileira tem trabalhado incansavelmente para encontrar um compromisso que permita o consenso, particularmente, em situações de emergência. A ONG afirma que os esforços devem continuar. Com esse respaldo, os diplomatas brasileiros se preparam para mais uma rodada de reuniões previstas para quinta e sexta-feira, em Genebra.