Título: Ditadura deixa 50 mil crianças miseráveis
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Fonte: O Globo, 14/02/2011, O Mundo, p. 24
Um triste legado do regime, menores foram forçados a atacar manifestantes
CAIRO. Os policiais atiraram nas costas de Mariam, de 16 anos, em 28 de janeiro, do telhado da delegacia de Saida Zeinab, uma favela da cidade velha, no ápice da violência governamental destinada a reprimir a revolução. Ela tinha ido à polícia junto com centenas de outros meninos e meninas pedir pela libertação de um amigo de 16 anos, Ismail Yassin, que havia sido preso. Algumas das crianças tinham apenas nove anos. Talvez tenha sido por isso que o policial do telhado atirou, inicialmente, para o alto.
Depois, ele atirou em Mariam. Ela estava tirando fotos dos policiais com seu telefone celular e caiu no chão com uma bala nas costas. As outras crianças a carregaram até o Hospital Mounira, nas proximidades ¿ onde, aparentemente, se recusaram a aceitá-la ¿, e, depois, para o Hospital AhmedMaher, onde a bala foi removida. Ismail foi libertado e conseguiu chegar à Praça Tahrir onde os manifestantes pró-democracia estavam sob fogo. Ele subia a rua Khairat quando foi alvejado na cabeça e morto.
Elas estão por toda parte na capital, as 50 mil crianças de rua do Cairo, a vergonha de Mubarak, seu legado silencioso. São órfãos à margem da sociedade, cheiradores de cola, viciados em drogas, às vezes com apenas 5 anos de idade. As garotas são presas com frequência e sexualmente molestada pelos policiais.
As estatísticas do governo egípcio sustentam que apenas 5 mil crianças vivem nas ruas, um número que as organizações não-governamentais e agências ocidentais dizem ser uma outra fantasia de Mubarak para encobrir um escândalo dez vezes maior.
Crianças entrevistadas pelo ¿Independent¿ ontem também revelaram como os simpatizantes de Mubarak deliberadamente levaram crianças para as cercanias da Praça Tahrir para jogar pedras nos manifestantes pró-democracia, como eles persuadiram os meninos de rua, sem um tostão, a participar das marchas pró-Mubarak. Muitas acabaram aderindo aos protestos pró-democracia. Segundo uma ONG local, cerca de 12 mil crianças foram presas nas ruas nas três últimas semanas.
¿ Disseram a eles que era seu dever, um ato patriótico, jogar pedras nos manifestantes, agir de forma violenta ¿ contou uma médica egípcia em Saida Zeinab.
Segundo ela, pelo menos 12 crianças da favela foram levadas para hospitais atingidas pela polícia, como Mariam. Ahmed, outro menino da comunidade, viu a amiga ser atingida.
¿ Foi logo depois das orações de sexta-feira, a polícia estava batendo nas pessoas nas ruas ¿ contou. ¿ Todos estavam jogando pedras nos policiais, porque todo mundo odeia a polícia. Mariam estava tirando fotos, de costas para a delegacia.
Ahmed conta que, desde que ela saiu do hospital, não foi mais vista. Uma ONG tentou localizá-la sem sucesso.
Os doentes ficam sem tratamento. Os mortos não têm importância. O corpo de Ismail Yassin, um mártir da revolução egípcia, permanece na câmera mortuária de um hospital sem que ninguém reclame por ele.