Título: Democracia trará paz
Autor:
Fonte: O Globo, 14/02/2011, O Mundo, p. 24

TEL AVIV. Presidente da Associação dos Egípcios de Israel, Shukri Shazli ¿ casado com uma árabe-israelense ¿ vive em Nazaré e ajudou a organizar celebrações pela queda de Mubarak na cidade.

Qual o conceito que a pequena comunidade egípcia em Israel faz do ex-presidente Hosni Mubarak?

SHUKRI SHAZLI: A sensação que tínhamos era a de que Mubarak fazia de tudo para atrapalhar a vida na região. Ele dizia que queria a paz, agia como se não quisesse. Ele perseguia todos os egípcios casados com israelenses. Volta e meia, recebíamos avisos de que tínhamos que deixar o país em 48 horas, sem mais nem menos. A perseguição foi tanta que não aguentei e vim morar em Israel, há 17 anos.

O senhor não teme que o acordo de paz entre Israel e Egito seja revogado?

SHAZLI: Não, pelo contrário. Agora vai haver democracia. E, com ela, haverá uma paz verdadeira, não uma paz na qual israelenses e egípcios quase não interagem. Mubarak pode ter mantido um acordo de paz formal. Mas não promoveu uma paz de fato.

Mas como poderia fazer isso se a maioria dos egípcios não tem uma boa visão de Israel?

SHAZLI: Isso pode mudar. O que aconteceu é que, nos últimos 30 anos, Mubarak desenvolveu uma versão dos fatos que intimidou a todos para se manter no poder. Ele dizia que os fundamentalistas tomariam o poder e transformariam o país numa república islâmica. É mentira.

Isso não pode acontecer?

SHAZLI: Não acredito. Primeiro, a Irmandade Muçulmana não tem tantos seguidores quanto se diz. Segundo, não são extremistas como o Hamas ou a Jihad Islâmica. São homens religiosos, mas não pregam a guerra.

Como a revolta popular no Egito vai influenciar os árabes-israelenses?

SHAZLI: Claro que vai influenciar. Pode ser que saiam em protesto e consigam melhorias. Mas acho que os mais influenciados, aqui na região, serão os palestinos. Eles querem mudanças, não querem mais líderes que fiquem dez, 15 anos no poder.