Título: Cresce pressão para que Murabak preste contas
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Fonte: O Globo, 14/02/2011, O Mundo, p. 24
População exige que ex-presidente seja julgado por crimes contra a humanidade e apropriação de bens do Estado
PAI PASSEIA com filho na Praça Tahrir: famíla Mubarak acumulou fortuna de até US$70 bilhões, que estaria em EUA, Europa e Golfo Pérsico
CAIRO. Enquanto o futuro político do Egito ainda é uma dúvida, a caça às bruxas já começou. Refugiado em Sharm el Sheikh, nas margens do Mar Vermelho, o ex-presidente Hosni Mubarak já teve uma parte de suas contas no exterior congelada. Mas isso ainda é pouco para o povo egípcio e organizações de direitos humanos, que pedem que o ditador seja julgado por crimes contra a humanidade e que sua fortuna, espalhada pela Europa, seja resgatada pelo novo governo. Já atuais e ex-governantes, incluindo o ex-primeiro-ministro Ahmed Nazif, estão proibidos de sair do país.
-¿ Ele roubou nosso dinheiro ¿ diz Mohammed Tarik, 20 anos, estudante de medicina. ¿ E se o próximo presidente do Egito puder trazer esse dinheiro de volta, vai mostrar que não é como o antigo. Isso resgataria a dignidade do Egito e traria respeito ao governo.
Ativistas ainda pedem que Mubarak seja julgado pelas estimadas 300 mortes durante os protestos, além de todos os abusos da polícia secreta. Milhões de egípcios também querem que ele responda por uma suposta apropriação de bens do estado, com os quais conseguiu uma fortuna estimada em algo entre US$40 e US$70 bilhões em propriedades e contas bancárias nos Estados Unidos, na Europa e em países do Golfo Pérsico.
A Suíça já anunciou o congelamento das contas do ditador, e Reino Unido e EUA aguardam uma solicitação oficial do Egito. No entanto, o governo britânico vem sendo pressionado para atuar com mais rapidez. Mas de acordo com o tesouro do país, uma movimentação como essa só poderia ser feita mediante à solicitação das autoridades egípcias, se Mubarak estivesse na lista negra das autoridades europeias ou da ONU, ou se o não-congelamento das contas representasse uma ameaça direta aos interesses britânicos. Ministro das Finanças do Reino Unido, Vince Cable disse que os países precisam agir juntos para identificar os ativos de Mubarak.
¿ Não estou ciente de que existam enormes ativos, mas há claramente a necessidade de haver uma ação internacional sobre isso ¿ disse Cable, em entrevista à BBC. ¿ Não há sentido em um governo agir sozinho, mas certamente temos que ver isso. Depende também se os recursos dele são ilegais ou se foram legalmente obtidos.
Segundo o ¿Sunday Times¿, a Agência Britânica de Combate a Fraudes Graves (SFO), que investiga crimes financeiros, está em busca de dinheiro e ativos vinculados a Mubarak. Gamal, filho do ditador, teria grande influência na distribuição do dinheiro da família pela Europa. Preparado para suceder ao pai na Presidência, ele já foi executivo no Bank of America em Londres, onde ainda possui uma casa no valor de US$20 milhões. Ao sair de lá, uniu forças ao maior banco de investimentos do Egito.
Presidente da Suíça, Micheline Calmy-Rey comentou as medidas tomadas contra Mubarak:
¿ Congelar os ativos de Mubarak deve motivar as autoridades egípcias a pedir assistência legal e ajudar a prevenir o saque desses fundos.
O embaixador do Egito em Londres, Hatem Seif el Nasr, disse que não tem informações sobre qualquer ativo de Mubarak.
¿ Sinceramente, sobre o dinheiro, eu não tenho absolutamente qualquer conhecimento ¿ afirmou à BBC.
Ex-ditador pode refugiar-se em hospital na Alemanha
De acordo com a televisão estatal do Egito, 43 membros do atual governo e do anterior estão sendo investigados e, portanto, proibidos de sair do país sem autorização ¿ caso do ex-ministro do Interior, Habib El Adly, e do ministro da Informação, Anas El Fekky, que estaria em prisão domiciliar. Mas o destino de Mubarak já é alvo de especulações. Autoridades diplomáticas sustentam que existem poucas chances de que ele seja processado antes das eleições presidenciais. Enquanto isso, o ditador teria tempo para negociar onde se exilar.
Especulações dão conta de que Mubarak, de 82 anos, já estaria se preparando para seguir para a Alemanha. Segundo o site da revista ¿Der Spiegel¿, o hospital Max-Grundig-Klinik, na cidade de Bühl, perto de Baden-Baden, estaria em negociações para receber o ditador, que luta contra um câncer. A Alemanha nega ter feito a oferta de exílio ao ex-presidente do Egito.