Título: Infraero admite erro em projetos
Autor: Vaz, Lúcio
Fonte: Correio Braziliense, 03/08/2009, Política, p. 3

Empresa diz que vai corrigir falhas que provocaram suspensão de obras. Nova direção quer encerrar os embates com o TCU

Além de ampliar a capacidade de receber passageiros, estatal estuda ter rede hoteleira no aeroporto de Brasília

A nova diretoria da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) afirma que chegou ao fim a briga que se arrastou durante anos com o Tribunal de Contas da União (TCU), em consequência de irregularidades recorrentes nos projetos da empresa. Muitas delas resultaram em paralisações de obras. O diretor de Operações e de Engenharia, João Jordão, reconhece os problemas do passado recente, mas afirma que há hoje um bom relacionamento com o tribunal. ¿Estamos num trabalho junto ao TCU para tirar um pouco dessa mácula. Aconteceu? Aconteceu. O que precisamos fazer para arrumar a casa? O TCU não tem objetivo de perseguição. Hoje, estamos em sintonia fina, caminhando juntos¿, afirma o diretor.

Grande parte dos problemas ocorria ainda na fase dos projetos básico e executivo. Várias obras foram paralisadas porque o projeto executivo não batia com o básico. Jordão informa que uma das decisões recente da empresa é só licitar obras que tenham projeto básico e projeto executivo prontos: ¿Nossos projetos básicos estavam muito ruins. Agora, só vamos licitar com os dois projetos prontos¿. Mas ele não quer fazer caça às bruxas. ¿Não estou dizendo que a equipe antiga estava errada, mas estamos pensando para a frente.¿

O nível de conflito entre Infraero e TCU está registrado em várias decisões do tribunal. Um dos casos mais graves é a construção do novo terminal de passageiros, da segunda pista de aeronaves e de obras complementares do aeroporto de Vitória. A obra está paralisada desde julho do ano passado, com apenas 36% de execução física. O contrato foi rescindido em maio deste ano.

¿Notícias plantadas¿ Em decisão de agosto do ano passado, o ministro relator Raimundo Carreiro desabafou contra notícias que teriam sido ¿plantadas¿ pela Infraero. ¿Nos últimos dias, notícias falaciosas têm sido plantadas na mídia, procurando passar à sociedade a imagem de que este tribunal estaria com a intenção de promover a paralisação de diversas obras de grandes aeroportos administrados pela Infraero, fato que poderia inviabilizar o crescimento do Brasil, inclusive no que concerne à realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014¿, diz o relatório do ministro.

Segundo Carreiro, foi dito que o corpo técnico do TCU, ¿segundo fonte da Infraero¿, não teria conhecimento acerca de obras aeroportuárias. ¿Deixou-se de mencionar, no entanto, que grandes obras de aeroportos estão sendo realizadas ao arrepio da lei, descumprindo-se princípios primários que regem a administração pública. Não se mencionou nas aludidas reportagens que as obras estão em andamento sem que os respectivos projetos estejam concluídos. Certamente, tais irregularidades acabam por desembocar em sobrepreço, superfaturamento e outros desvios¿, disse o ministro.

Carreiro acrescentou que a licitação para o terminal de passageiros 3 de Guarulhos, ¿que se arrasta há cerca de quatro anos¿, não tinha planejamento adequado. ¿Naquele processo, foi constatado superfaturamento de R$ 100 milhões somente em custos relativos a pavimentações. Parece-me que, na verdade, a Infraero carece de um corpo técnico para enfrentar os desafios que lhe são impostos.¿

Jordão afirma que esse conflito faz parte do passado. Ele comentou que nomeou um novo responsável pela obra no aeroporto de Vitória. Recentemente, uma equipe solicitou reunião com técnicos do TCU, para averiguar o que o tribunal estava realmente querendo, já que algumas das últimas providências adotadas não haviam sido aceitas. ¿Entramos em contato com o TCU e a reunião foi prontamente marcada. Eles vão até Vitória. Estamos nos entendendo¿, concluiu o diretor da Infraero.

Nossos projetos básicos estavam muito ruins. Agora, só vamos licitar com os dois projetos prontos

Diretor de Operações e de Engenharia da Infraero, João Jordão

Parece-me que, na verdade, a Infraero carece de um corpo técnico para enfrentar os desafios que lhe são impostos

Raimundo Carreiro, ministro do TCU

Ideia é construir hotéis

Entre os preparativos para a Copa de 2014, a Infraero realiza um estudo para avaliar o potencial de mercado para a construção de hotéis nas áreas dos aeroportos de Brasília e do Galeão. No interior do aeroporto de Guarulhos já existe um hotel no estilo fast-sleep, com possibilidade de hospedagem por apenas algumas horas. O aeroporto de Brasília é o segundo do país como centro de distribuição de voos. Faz a conexão de voos das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste para as regiões Sudeste e Sul. Isso poderia justificar a construção de um hotel na sua área aeroportuária, evitando deslocamentos até o centro da cidades nos casos de conexões com espera mais longa.

Em termos de movimentação de passageiros, Brasília ficou em quarto lugar no país no mês de maio, considerando o movimento acumulado de um ano. Nesse período, 3,88 milhões de passageiros passaram pelo aeroporto de Brasília. O primeiro lugar do ranking continua com Guarulhos (SP), com 8,2 milhões de passageiros por ano. Em segundo, vem Congonhas (SP), com 5,2 milhões, e em terceiro, Galeão, com 4,96 milhões. Há um ano, o movimento na capital federal estava próximo dos números do Galeão ¿ 4,5 milhões contra 4,7 milhões. O número de passageiros caiu em todos os grandes aeroportos.

A pesquisa de mercado para um possível empreendimento hoteleiro localizado próximo ao aeroporto de Brasília procura resposta para as seguintes questões: o hotel deve ser econômico ou requintado? Qual o número e o tamanho ideal dos apartamentos? Qual o valor máximo da tarifa? Quais serviços devem ser oferecidos (restaurante, internet, estacionamento, sala de eventos)?

Como Brasília é área tombada, a Infraero deve enfrentar dificuldades extras, como estudo de viabilidade e mudança na destinação do terreno. Depois, viria a licitação para o empreendimento e a construção, tudo isso antes de 2014. (LV)

Descanso rápido O conceito de fast-sleep aplica-se principalmente para quem precisa passar uma noite antes de seguir viagem. Já existem alguns hotéis, construídos dentro de aeroportos, próximos ao desembarque, ou em áreas da região do terminal, onde o viajante pode descansar entre um voo e outro. As cabines, em geral, são compactas e podem ser locadas por hora, período ou diária.